Algum a minha porta 
JENNIFER GREENE

Digitalizao: Nina
Reviso: Bruna



O milagre do amor...

O legendrio cirurgio do Texas, Justin Webb, enfrentou seu maior desafio: conquistar o corao da bela e corajosa detetive Winona Raye. Quando Winona encontrou um beb abandonado  sua porta, o charmoso doutor, solteiro convicto, viu a chance de lhe dar uma mo... em casamento. A independente Winona no tinha pressa de se casar, mas Justin estaria l, esperando... quer ela concordasse ou no!




Copyright  2001 by Harlequin Books S.A.
Originalmente publicado em 2001 pela Silhouette Books, diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer forma.
Esta edio  publicada atravs de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canad.
Silhouette, Silhouette Desire e colofo so marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.
Todos os personagens desta obra so fictcios.
Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.
Ttulo original: Millionaire M.D.
Traduo: leda Moriya
Editor: Janice Florido
Chefe de Arte: Ana Suely Dobn
Foto capa: Srgio Luiz Jorge
Paginador: Nair Fernandes da Silva

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10a andar CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil
Copyright para a lngua portuguesa: 2001 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Fotocomposio: Editora Nova Cultural Ltda. Impresso e acabamento: Grfica Crculo





CAPTULO I

Perguntasse ao dr. Justin Webb e saberia que era ridculo, se no ofensivo, tocar "The Tennessee Waltz" numa festa texana, mas quem se importava? Bastava saber que Winona era seu par. E ele nunca poupara esforos para usufruir sua companhia. Era capaz de vestir smoking e comportar-se bem a noite toda, desde que conseguisse alguns momentos de privacidade com Winona. Momentos como aquele...
	Juro, meu mel, voc est no ponto para se casar.
	Ora, doutor, obrigada.  Winona usava salto alto, mas, mesmo assim, tinha que levantar o rosto para encar-lo. Ele estava maravilhado. Aqueles olhos tinham o mesmo azul suave, esperanoso e magnfico do cu do amanhecer... mas o sorriso era cheio de malcia. E isso quando ela estava sendo gentil com ele.  Voc no me pediu em casamento h... duas semanas, j?
Doze dias e seis horas, mas quem estava contando?
 Mais ou menos.
Ela assentiu.
 E quantas vezes terei que lhe dizer? Se sentir vontade de me casar com um solteiro mulherengo e rico, eu aviso.
Justin sorriu, pois no adiantava levar o insulto a srio. Antigamente, Winona era muito mais agressiva.
Pensando bem, ele tambm.
Segurando-a com um pouco mais de presso  cintura, seguiu bailando com ela pelo salo, passando pelos msicos, pela fila de autoridades e pela realeza de Asterland. Gostaria de passar  varanda e sair pela noite, de modo a ter Winona s para si... mas no daria certo. Infelizmente, fazia uma tpica noite de janeiro no oeste do Texas, com temperatura mais baixa que corao de bruxa e um vento ainda mais gelado.
	Bem, diga, querida. Se no quer falar de casamento esta noite, que tal um belo caso imoral, amoral e escandaloso?
	Adoraria, doutor... Mas voc j fez isso com tantas mulheres na cidade que eu seria apenas mais uma na lista. Obrigada, mas no.
Ele franziu o cenho... no pelo comentrio, mas porque ela pisara em seu p. Winona era linda, mas tinha a graa de um coiote na pista de dana. Puxou-a discretamente pela cintura, aproximando-se o bastante para vislumbrar os mamilos sob aquele vestido preto, reto e simples, com decote sensual. O bastante para ver suas pupilas dilatadas quando seu ventre roou na faixa de cetim do smoking. O bastante para se encantar com aqueles lbios acetinados.
E o bastante para v-la franzir o cenho.
 Comporte-se, seu...
Ele ergueu a sobrancelha, elaborando a expresso inocente e charmosa que sempre conquistava o sexo mais frgil. Com uma exceo.
 Ora, Win, voc sabe que s estou tentando ajudar. Estava com medo de que tropeasse e casse. E sei que voc no gosta de conselhos, mas devia desistir de tentar conduzir a dana, garanto que seria muito mais fcil.
 Voc est tentando ajudar? Foi o que o lobo disse no escritrio da raposa. E o que  que sua mo est fazendo no meu traseiro? Olhe que lhe dou um murro.
Justin j sabia que ia apanhar de Winona... em pblico, em particular, na igreja, num baile de gala ou em qualquer outro lugar. Ela batia nele desde os doze anos, sempre levada e zangada, quando ele, aos dezessete anos, gentil e experiente, imaginava j saber tudo... exceto por que aquela menina atrevida o afetava tanto.
	J pousei minha mo no seu traseiro antes  observou, delicadamente.
	Aquilo foi diferente. Eu estava machucada, tinha cado sobre cacos de vidro e voc estava bancando o mdico...
	Fico contente por ter levantado essa questo. Nunca tive a oportunidade de lhe dizer o quanto gostava de brincar de mdico com voc  disse ele, ardoroso.
Winona mal conteve o riso; no conseguia permanecer impassvel diante do senso de humor dele... mas, desta vez, voltou a ficar sria rpido demais.
 Pare com isso. E estou falando srio. A questo  que eu no estaria neste arrasta-p sofisticado se no estivesse trabalhando. S porque no estou de uniforme, no significa que esteja aqui para me divertir. Estou aqui como profissional... e isso significa que, ou voc recolhe essa mo boba, ou terei que atirar... e no estou brincando, Justin.
Ele no s acreditava nela, como jamais fizera nada para constrang-la em pblico. Um roar provocante era uma coisa, um apalpar impertinente na frente de todos era outra bem diferente. Obedeceu no apenas porque respeitava Winona e seu trabalho, mas porque, se fosse mesmo levar um tiro dela, no queria espectadores num raio de vrios quilmetros.
O problema era que no conseguia tirar a mo de cima do bumbum durinho de Winona. No se tratava de opo. Padres ticos e morais de comportamento simplesmente no se aplicavam. Deixou a mo escorregar da cintura fina at a massa arredondada do traseiro e o massageou vrias vezes, porque... raios, tinha que fazer aquilo!
A ousadia produziu o efeito biolgico bvio: Justin excitou-se em trs segundos. Mas franziu o cenho.
 O que voc est usando por baixo do vestido?
Nunca deveria ter perguntado, j que ela parecia no usar nada. Absolutamente nada. No havia mulher no clube, exceto Winona, sem diamantes. Jias pendiam de orelhas, pescoos, punhos e dedos, por toda a pista de dana. Win no usava brincos nem colares. O vestido preto longo, simples, fazia as criaes dos estilistas parecerem alegoria de carnaval. Winona destacava-se pela beleza. Sempre se destacara.
S que... no percebia nenhuma roupa ntima sob o tecido preto. Com certeza, no pousara a mo no traseiro esperando sentir algo. Mas o tecido do vestido era fino e instintivamente procurara a marca da calcinha. Quando no encontrou, o instinto masculino falou alto. Nada justificava uma mulher dispensar a roupa ntima num evento to pblico... ainda mais Winona, que nunca mostrava nada a ningum, normalmente. Pensando bem, s podia haver um motivo para ela ter comparecido sem calcinha. Tinha algum amante  quem ela pretendia seduzir.
Um amante.
Um homem.
Um homem... que no era ele.
 Justin, voc no me ouviu?
Ele viu Winona fechando o punho direito, pronta para golpe-lo.
 Tire as suas mos do meu... O vestido ficava marcado  explicou ela.  Eu no podia usar nada por baixo. No que lhe deva explicaes, seu... seu... Voc tem cinco segundos no mximo antes que eu...
Ele retirou a mo. Levou alguns segundos para recuperar o flego. Nesse intervalo, Winona manteve o punho pronto para acertar seu queixo. At que um moreno alto e bonito os abordou e conduziu o punho cerrado dela a seu ombro.
	Estou entrando  anunciou Aaron Black.  Antes que vocs saiam no soco. Alm disso, eu dano muito melhor do que Justin, Winona. E sou mais bonito.
	Droga  resmungou Justin. Mas deixou Aaron levar Winona pela pista de dana. Primeiro, porque a banda comeou a tocar uma msica sertaneja animada e no haveria mais oportunidade de intimidade. Alm disso, Aaron no era apenas um membro do Clube dos Pecuaristas do Texas, mas tambm um amigo sincero. Para completar, ele lhe indicara o bar discretamente, quando entendera ser melhor deixar Winona por algum tempo.
Justin foi ao bar, mas observar Win bailando com Aaron o aborrecia e o usque no estava ajudando.
Justin e Winona viviam brigando como duas crianas na mesma caixa de areia, mas ele no se importava, porque se divertiam. O problema era que ela o tratava como amigo, vizinho, um irmo mais velho adorado. No o via como homem.
J a pedira em casamento umas cinquenta vezes e em todas Winona desatara a rir, como se a idia de se casar com ele fosse a melhor piada deles.
Ela no se impressionava com o fato de as outras mulheres da cidade ficarem atrs dele. Simplesmente, parecia no imagin-lo como amante. Aps tantos anos de espera, ele se convencera de que ela somente o veria de outra forma no dia em que precisasse dele.
	Oi, dr. Webb.  Riley Monroe, o zelador do clube e barman, sorriu.  Vocs, rapazes, se superaram na festa hoje. E mesmo um arrasta-p para valer. O que vai ser?
	Usque. Puro. E obrigado, Riley.  Justin no esperou nem trinta segundos e o copo com o lquido dourado estava em suas mos. Normalmente, teria conversado um pouco com Riley; porm, naquele momento, apenas tomou um gole da bebida e apoiou-se de costas para o balco.
L estava Winona, rodopiando com Aaron... e, raios, parecia estar se divertindo.
Olhou ao redor, determinado a esquecer Winona... pelo menos por algum tempo. A festa estava no auge e, embora a elegncia fosse um aspecto importante devido  presena de tantos convidados da nobreza, prevalecia o estilo texano. Lagosta e churrasco dividiam a mesma mesa, decorada com arranjo de rosas e esculturas de gelo. A orquestra formal vestia smoking... mas, claro, havia os msicos com rabecas. Uma cabea de javali gigante ornava uma parede, como que tomando conta das convidadas sobrecarregadas de diamantes e rubis.
O destaque era a placa de madeira  porta de entrada, com o lema "Liderana, Justia e Paz" gravado a ferro na superfcie rstica e que, naquela noite, tinha um significado especial.
Justin tomou outro gole de usque, tentando ignorar a morena que passou danando perto dele. Piscou para uma loira, a princesa Anna von Oberland de Obersbourg... pelo menos esse era o seu ttulo at se casar com Greg, com quem se agarrava na pista, totalmente alheio ao ritmo ligeiro da msica.
O propsito daquela festa era Anna. Algum de fora com certeza acharia a situao confusa... o que um punhado de texanos tinha em comum com a realeza dos pequenos pases europeus de Obersbourg e Asterland? Simples. Meses antes, a princesa Anna vira-se em dificuldade e os membros do clube a socorreram. Dali a dois dias, doze cidados de Asterland e de Obersbourg voltariam para a Europa num jatinho particular... sem Anna, claro, j encantada com Greg e com o Texas. Por isso, a festa. Ao mesmo tempo que a famlia de Anna demonstrava sua gratido aos rapazes do Clube dos Pecuaristas do Texas, reforavam-se os laos entre os governos.
Justin tomou o ltimo gole de usque, achando aquela festa inusitada. No a festa em si. Verdade fosse dita, o Clube dos Pecuaristas agarrava qualquer pretexto para comemorar e quanto maior a festa, melhor. Mas o grupo geralmente no alardeava sua "outra" atividade, a de proteo dos inocentes.
Nesse instante, ocorreu a Justin que devia ser o nico membro do clube que no portava arma. Nem sempre fora assim. Seus avs eram ricos fazendeiros e produtores de petrleo e ningum com tanto dinheiro percorria aquelas terras ermas sem uma arma para proteo pessoal. Ele preferia ajudar os inocentes com um bisturi.
E no havia nada de errado nisso. Exceto que, ao voltar da Bsnia, mudara de especialidade. Ningum questionou sua opo por cirurgia plstica, nem reparou que passara a recusar determinados casos mdicos. Mas isso no importava, porque seu trabalho no entrava em conflito com as atividades do Clube dos Pecuaristas. Mas no estava descartada a possibilidade de decepcionar os companheiros.
Por enquanto, felizmente, s decepcionara a si mesmo.
A orquestra passou a executar uma msica romntica. Uma ruiva passou danando e lhe dedicou uma piscadela. Em seguida, uma loira lhe acenou por sobre o ombro do parceiro. Justin piscou e sorriu, mas no se animou. S pensava em Winona. Alm disso, as mulheres assediavam-no porque sabiam que ele era rico. Ele mesmo cultivava essa imagem, tirando frias em lugares extravagantes e sem intervalo regular. Era conveniente, pois assim ficava mais  disposio dos projetos e misses do Clube dos Pecuaristas do Texas.
Naquela situao em particular, entretanto, a mdia foi levada a crer que alguns bons rapazes texanos haviam "acidentalmente" se envolvido no dilema da princesa Anna. Justin nunca fizera segredo de sua ligao com o clube. Nunca fizera segredo de nada. Na sua opinio, nada causava mais atropelos do que segredos. Mas aprovava a discrio quando...
L estava ela. Win. No estava danando com Aaron Black... Justin sentiu um aperto no estmago. Era Matt. Ela estava danando com Matt Walker, tambm membro do clube. Um amigo.
Mesmo assim, no gostava da maneira como ele segurava Winona. Nem do jeito como lhe sorria. Pensando bem, havia um limite para lealdade, amizade, honra e tica.
E esse limite era Winona Raye.
Oh, raios. Estava ficando louco. Era ela. Winona sempre o deixava perturbado.
 Dr. Webb, quer mais um?  ofereceu Riley, o barman.
Justin voltou-se.
 Sim, Riley. Por favor.
O estranho ao lado puxou conversa:
	Acho que j nos vimos em outra ocasio, dr. Webb. Meu nome  Klimt, Robert Klimt.
	Oh, sim. Claro, eu me lembro.  Na verdade, Justin lembrava-se vagamente... tinha quase certeza de que algum dissera que Robert Klimt era membro da comitiva do governo de Asterland.
	Eu perguntava ao sr. Monroe sobre o smbolo na porta de entrada.  Klimt indicou a placa "Liderana, Justia e Paz".  Ouvi dizer que o lema tem a ver com uma lenda de Royal, Texas, e algumas jias.
	Oh, sim, isso mesmo.  Riley serviu o copo a Justin com um floreio e providenciou mais cerveja para Klimt.  Aqui prximo ao clube h um parque. O senhor provavelmente deve ter notado. L por volta de 1800, havia uma misso ali, uma velha igreja. Na guerra com o Mxico em 1846, mais ou menos, um soldado texano encontrou um companheiro ferido e tentou salv-lo...
Os msicos se lanaram  execuo da tradicional "The Yellow Rose of Texas". Justin ouvia a conversa de Klimt e Riley, mas no tirava o olhar da pista de dana. A rigor, Winona estava em servio naquela noite, ainda que sem uniforme. No era o tipo de policial que andava uniformizada e armada, pois trabalhava com crianas em perigo. Mas a fora policial local fora convidada porque a cidade inteira queria que aquele arrasta-p corresse bem, e Winona sempre era escalada para esse tipo de atividade. Ela era ideal. Todos a conheciam e confiavam nela. E estaria tudo timo se ela no fosse to bonita... O barman prosseguia com a histria:
 Bem, esse soldado texano s estava tentando salvar o camarada ferido, mas j era tarde demais. O soldado no sabia que esse homem escondia trs jias formidveis, at cuidar do corpo para enterr-lo. Como desconhecia a identidade do morto, o soldado trouxe as jias para Royal...
 Mas  uma histria verdadeira?  indagou Klimt.
Justin desviou o olhar da pista e encarou Klimt.
O camarada era baixo e estava impecvel da cabea aos ps, porm apresentava uma mancha no rosto. Como mdico, apostava numa condio fsica pr-cancerosa. Naquele caso, a menor falha era espantosa, pois o homem mantinha todo o resto em perfeita ordem. Riley riu.
	Ali, quem sabe? Mas a gente no se importa. A cidade gosta da lenda e, assim, ns a passamos para a frente.
	Ento, fale-me mais sobre essas jias  pediu Klimt.
	Bem, para comear, cada uma delas  uma parte do lema do clube, entende? Cada uma das gemas  diferente, rara e sem preo. O que torna tudo mais interessante e misterioso  por que esse soldado texano estava com elas... mas nunca saberemos a resposta. A questo  que ele as tinha. Uma gema era um diamante vermelho...
	Nunca soube que existem diamantes vermelhos.
	E no existem  disse Riley.  Exceto num veio muito raro. Ento, esse diamante representa a "Liderana" no lema. Certo, dr. Webb?
	Certo, Riley.  A orquestra passou a executar uma valsa antiga e Justin viu Aaron Black danando com uma moa. Pamela o qu? Uma professora? Muito tmida, muito adequada... Mas onde estava Win? Finalmente, localizou-a com um homem moreno de olhos cinza e dentes brancos num rosto sempre taciturno... Ben, outro membro do clube. Justin confiava em Ben at o limite que estabelecera na pessoa de Winona...
	Dr. Webb, o sr. Klimt perguntava sobre as outras pedras...  atualizou Riley.
	Sim? Bem, a lenda diz que eram um diamante vermelho, uma opala preta multicolorida e uma esmeralda.
	Sim, sim  concordou Riley e apoiou os cotovelos no balco.  Veja, tecnicamente, a opala  a menos valiosa das trs pedras. Mas uma opala preta multicolorida  muito rara. E aqueles que acreditam na magia das pedras conferem poderes de cura  opala multicolorida, poderes de justia... e a entra a segunda palavra do lema. Justia. Como um ideal, sabe?
	Sim, sr. Monroe. Sei o que  um ideal  disse Klimt, impaciente.  E a terceira pedra, a esmeralda?
	Estou chegando l. Ao redor do mundo, por sculos, a esmeralda  considerada a pedra dos pacifistas, e essa esmeralda em particular era enorme. Assim, paz, era a terceira palavra natural para o lema.
	Liderana, justia, paz  repetiu Klimt.   uma boa histria. Mas parece uma lenda muito elaborada se as pedras no existem.
	E h mais  disse Riley, animado.  Nosso soldado trouxe as pedras de volta a Royal aps a guerra com o Mxico. Ele ia ficar rico, sabe, vendendo-as, e poderia comprar terras, construir uma bela casa. S que, quando chegou, acharam petrleo na casa dele. Ele tinha ouro negro jorrando pelo ladro e nunca precisou vender as pedras.
	Ento, o que aconteceu com elas?
Riley olhou para o copo de Justin e para o de Klimt e renovou as doses.
 Ningum sabe. O Clube dos Pecuaristas do Texas... bem, alguns homens formaram esse grupo, antes mesmo do fundador do clube, Tex Langley. Alguns dizem que se reuniram primeiro para guardar as jias. Alguns dizem que eram apenas lideranas da comunidade que passaram essa responsabilidade de gerao em gerao. Alguns dizem que usaram a lenda apenas para criar o lema, porque, bem, era um bom lema. Esses so os valores por aqui. Liderana. Justia. Paz...
 Voc acha que as jias existem?
Riley apontou para si mesmo.
	Eu? Oh, pode apostar. Acho que existem e esto muito bem escondidas em algum lugar, neste instante.
	Ento, o que acha que aconteceu com elas?
	Bem, cada um tem sua teoria...
Algum pediu a vez a Win. Era Dakota Lewis, militar aposentado, cabelo escovinha, postura ereta, divorciado. Justin acompanhou o par pela pista e quase sorriu. Dakota no danava bem. Win teria sorte se sasse sem dedinhos quebrados. Desde o divrcio, Dakota no se interessara por mulheres; portanto, no havia o que temer.
 Bem, se as jias realmente existiram, onde acha que esto escondidas?  indagou Klimt.
Justin deu uma olhada nos dois homens. A lenda geralmente despertava a curiosidade de forasteiros e turistas, mas Klimt mostrava interesse fora do comum.
 Se a jias realmente existirem, devem estar num cofre bem guardado  concluiu Justin.  Ns s divulgamos a lenda porque  divertido para todos. E quem quer ser o estraga-prazeres contando que Papai Noel no existe? Eu quero acreditar nisso at os cento e dez anos.
Riley desdenhou.
	Est dizendo que acredita no Papai Noel ou nas jias, dr. Webb?
	No Papai Noel, claro. Pode ficar com as jias. Eu levo o esprito do Natal comigo todos os dias.
Klimt pegou a cerveja e foi dar uma volta no salo. Justin ia fazer o mesmo... at ver Winona. Estava danando com outro estranho. No era texano. Era um dos representantes de Asterland que ainda no conhecia.
Ela sorriu para o rapaz e, discretamente, retirou a mo dele do topo de seu bumbum. Ela sabia lidar com os homens e por isso mesmo era convocada a trabalhar nessas ocasies. Royal era uma cidade rica e aqueles que no eram donos do petrleo trabalhavam para estes em troca de tima remunerao. As escolas eram de primeira, bem como os demais servios. O nico "risco" eram os roubos. Royal era atraente para os ladres. Tambm por esse motivo, Winona se revelava a escolha certa, pois percebia intuitivamente quando algum ou algo no estava certo.
Justin franziu o cenho. Nenhum rapaz a observava, mas ela olhava o salo preocupada. Ele no teve dvida. Entrou na pista e foi abrindo caminho at o outro lado.
Talvez ela no soubesse que ele estava apaixonado.
Talvez ela no pensasse nele como algo mais do que o velho amigo com quem crescera.
Com certeza, nunca levara a srio seus pedidos de casamento.
Mas sempre que Winona se visse em dificuldades, ele estaria ali para ajud-la, quisesse ela ou no.

CAPTULO II

Winona estava com um problema. Tinha o mesmo sonho havia duas noites, revivendo a noite da festa do Clube dos Pecuaristas do Texas. Sabia que era outro sonho, porque os detalhes permaneciam os mesmos. Nele, estava deslumbrante... o que era divertido, porm pouco realista. Rodopiava e danava pela pista sem tropear, graciosa... outra indicao de que se tratava de um sonho. Trocava de pares, os homens iam se revezando, um aps o outro, todos maravilhosos, todos encantados com tudo o que ela dizia, brigando para t-la novamente nos braos...
Oh, os sonhos podiam ser maravilhosamente ridculos. Mas eram seus sonhos e se divertia com eles.
S que na verso daquela noite, Justin tomou-a nos braos. Tocavam "The Tennessee Waltz"... que devia ser uma das canes mais sentimentais de todos os tempos, destinada a provocar emoes mesmo na mulher mais durona... como ela mesma... e de repente, ficava nua. Rodopiando na pista. Danando, sem nem um trapinho. Estar sem roupa no era o problema, pois ningum no salo percebia. Exceto ela mesma.
E Justin.
Winona ouviu os sinais de alarme nos ouvidos, mas ignorou-os. Obviamente, no era a realidade e, tratando-se de um sonho particular, no tinha que acordar enquanto no quisesse.
Justin no tirava o olhar de cima dela. Ela lhe deu um tapa na cabea... e foi to real e lgico que chegou a cogitar se no era um sonho, afinal... mas Justin no pareceu se importar, nem o golpe fez com que desviasse o olhar... o escrutnio comeava na ponta dos ps, passava pelas pernas esguias... com certeza, era um sonho... pelos quadris sem nenhum excesso de gordura... um sonho muito bom... subia, parava na cintura, subia aos seios, pescoo e ento chegava aos olhos.
Sim, ela o queria.
Sempre o quisera.
Outro alarme soou... mas, ora, na privacidade de um sonho, uma mulher podia ser honesta consigo mesma. Justin parecia um ator de cinema. Alto. Magro. Com um sotaque lento e carregado, e olhos sexy. Era vestir um smoking e qualquer mulher babaria por ele.
No sonho, uma vaga lembrana emergia. Aos doze anos, at ser adotada pela famlia Gerard, nunca tivera uma bicicleta. Sendo nova na famlia, ainda esperava levar tapas, broncas. Aconteceria. S no sabia quando, mas estava preparada para se proteger. No precisava que ningum cuidasse dela... era s uma bicicleta. Oh, queria tanto passear de bicicleta e todos presumiam que j soubesse se deslocar sobre duas rodas, naquela idade. Mas no sabia. E realizou a primeira tentativa ao anoitecer, porque no havia ningum na rua, nenhum estranho para v-la.
E Justin estava l quando ela colidiu com a rvore. Ajudou-a. Endireitou a bicicleta. Um rapaz bonito de dezessete anos... com um jeito de cavaleiro... gentil o bastante para emocion-la. Ele tocou em seu rosto e a fez dar risada. Ento, teve que esmurr-lo, claro. O que mais uma menina de doze anos podia fazer?
Mais alarmes soaram na cabea. O mesmo som irritante e insistente.
Winona abriu os olhos num quarto escuro. No tinha doze anos, nem estava encantada com Justin Webb, danando nua com ele no Clube dos Pecuaristas do Texas. Era apenas o seu quarto e o telefone tocava, s sete da manh... de acordo com os nmeros brilhantes no relgio de cabeceira.
Assim que viu as horas, despertou. S havia um motivo para o telefone estar tocando quela hora. Problema. Embora tecnicamente ela fosse uma policial administrativa, encarregada de atender ocorrncias com crianas e adolescentes, a realidade mostrava que os garotos nunca se metiam em encrenca em horrio comercial.
Procurou a tomada do abajur, pousou os ps no cho, afastou os cabelos desgrenhados e agarrou o telefone.
 Winona?
No era criana. Era voz de adulto. Seu chefe, da delegacia.
	Voc sabe que sou eu. O que foi, Wayne?
	Sabe aquele avio que devia decolar ontem  noite para Asterland? O vo da alegria com a realeza e dignitrios?
	Sim, claro.  A cidade toda sabia.
	Bem, algo deu errado. Eles decolaram e logo enviaram mensagem dizendo que estavam com problemas. Fizeram um pouso de emergncia a cerca de trinta quilmetros da cidade, no meio do nada, num lugar bem plano. Houve um incndio...
Ela captou o quadro. Os detalhes no tinham importncia.
	Mas o que quer que eu faa?
	Francamente, no sei...  Wayne parecia em choque e devia estar aflito. No gostava de baguna na cidade dele. Wayne considerava Royal como se lhe pertencesse.  Estou no local. H muita confuso aqui. Tudo aconteceu h menos de meia hora. Primeiro, tiramos os ocupantes do avio. S um casal parece mais ferido, o restante s est com os nervos abalados. Mas ningum sabe o que aconteceu e eu no quero nenhum curioso mexendo na cena. Ainda est escuro e  s o que eu posso fazer at o amanhecer...
Ele estava falando mais para si mesmo do que para ela. Winona sabia como a mente do chefe funcionava.
	Ento, como eu poderia ajudar? No hospital? No local do acidente? Na delegacia?
	Aqui  decidiu Wayne, de repente.  Voc vai me mandar para aquele lugar se eu admitir que s quero uma mulher aqui?
	Provavelmente.  Ela segurava o aparelho bem junto ao ouvido e procurou um desodorante na gaveta da cmoda. Aplicar usando apenas a mo livre era difcil, mas j fizera isso antes.
	Bem, ento vai ter que me mandar mesmo. Para dizer a verdade, tudo o que  preciso est sendo feito. E s que... no  o bastante. No neste caso. Parece que estamos no meio de um incidente internacional maior. Primeiro, dizem que este avio  um dos melhores da categoria, perfeito, nada pode dar errado... mesmo assim, cai. Ento, as embaixadas ligam. Washington liga. Chamamos os bombeiros de Midland e Odessa para ajudar. Ento, metade da cidade... naturalmente... vai comear a aparecer assim que amanhecer,  como tentar deter uma avalanche. Em seguida, as mulheres traro caarolas... E uma loucura. Temos que descobrir a causa do acidente e, para isso, precisamos impedir o acesso do pblico e impor a ordem. Quero minha equipe toda aqui,  s. Mesmo que...
	Wayne?
	O qu?
	Pare de falar. D-me instrues.  Ela ouviu atentamente.  Estarei a em vinte minutos.  Desligou e comeou a se mexer. Pegou uma calcinha branca da gaveta e vestiu-a. Escolheu uma cala jeans e levantou-se para acabar de vesti-la. Estava confusa. No com o telefonema de Wayne. Embora se especializasse em crianas e jovens, estavam no Texas e todos eram chamados quando havia uma crise, no importava a funo.
Um acidente de avio constitua evento grave... e preocupante. Winona conhecia cada uma das pessoas que estavam no avio... todos compareceram  festa do Clube dos Pecuaristas do Texas, duas noites antes... e uns poucos eram seus amigos pessoais. Pamela Miles seguia para Asterland num intercmbio de professores. Lady Helena tornara-se conhecida na cidade por empreender projetos de caridade. Alm disso... bem, o mundo todo andava conturbado, menos Royal. Simplesmente, nada acontecia ali. Claro, havia alguns ladres e brigas, e as pessoas ficavam malucas aqui e ali, mas nada de chamar a ateno do pas.
De repente, ela ouviu um barulho... um barulho estranho e inesperado o bastante para det-la no corredor. Parecia um choro de beb... mas claro, isso era ridculo. Como no ouviu mais nada, retomou o caminho.
Na cozinha de tons creme e pssego, acendeu a luz e ligou a cafeteira. Ento, voltou depressa para o quarto, repassando mentalmente o que ainda restava fazer. Precisava escovar os cabelos, pegar uma ma para comer no caminho e... claro, uma roupa para usar acima da cintura. Nunca vestia o uniforme... para conquistar a confiana de crianas, devia usar jeans e nenhum emblema oficial intimidador... mas isso no justificava chegar ao local do acidente com os seios de fora. s vezes, imaginava dar um susto em Wayne... todo mundo sabia que ele era um machista... mas no naquele dia.
Vestiu o suti esportivo e procurou um suter preto velho na gaveta... ento, ouviu de novo.
Raios. Em algum lugar havia um barulho. Um som estranho  sua casa. Um cachorrinho? Um gatinho da vizinhana?
Silenciosamente, apurando os ouvidos, vestiu o suter, calou as meias e as botas e pegou a escova. Os cabelos pareciam um ninho de passarinho, mas eles tinham aquela mesma aparncia quando acabava de sair do cabeleireiro. Ao olhar-se no espelho, inexplicavelmente, pensou em Justin... e no sonho onde ele fazia o escrutnio de seu corpo nu.
Franziu o cenho. Primeiro, sonhos estranhos; agora, sons estranhos... ela parecia ter acordado no mundo da lua e justamente num dia em que tinha que estar bem alerta.
Rapidamente, apagou a luz e partiu para o mundo real. Na cozinha, serviu-se de caf e foi ao vestbulo pegar a jaqueta, reunindo o que mais precisaria durante o dia: a chave do carro, uma ma, uma tampa para o caf, dinheiro para o almoo. Eram os itens bsicos. J ia dar meia-volta, quando se lembrou de verificar todos os cmodos e garantir que aquele som estranho no vinha de dentro da casa. No era como se morasse numa manso enorme, cuja inspeo levaria horas. A casa rstica era pequena... mas era sua. Sua e do banco, alis.
Investira no imvel boa parte do salrio, no ano anterior. J tinha vinte e oito anos e no queria mais pagar aluguel. Procurara uma boa casa, numa vizinhana com crianas e boas escolas. Seu quarto era branco e azul-cobalto e, como no entendia de decorao, usara as mesmas cores no banheiro. O segundo quarto servia de escritrio, com televiso e microcomputador... e de depsito, para tudo o que no tinha tempo de selecionar e descartar. O terceiro quarto era o maior e continuava vazio... No admitia a ningum que reservara o cmodo para um beb.
A cozinha era o sonho de todo aquele que no sabia cozinhar. Prtica, com muitos aparelhos eltricos e o balco e as paredes em azulejos cor de pssego. Na sala, de um sof marrom tinha-se vista do quintal. Instalara suportes com alimentos para pssaros ao redor da casa e havia janelas por toda parte... raios. L estava o som novamente. Um chorinho.
Era isso ou ela estava ficando louca, o que, claro, sempre era uma possibilidade. Destrancou a porta e a abriu.
Ficou de queixo cado. A casa tinha fachada em reboco branco e arcos avermelhados na entrada. Bem a sua frente, na sombra, havia um cesto de vime, acolchoado com panos velhos mas limpos... e o som vinha dali...
Largou a chave do carro. A ma tambm caiu e rolou pelo cho. Agachou-se e separou as camadas de pano.
Quando viu o beb, sentiu o corao falhar. Abandonado. O beb fora abandonado.
	Calma, calma... est tudo bem, no chore...  Cuidadosa e habilmente, Winona ergueu a criaturinha. O ar era muito frio  luz ainda acinzentada do amanhecer. Felizmente, o beb estava bem embalado.
	Shh... Shh...  Winona continuou acalmando o beb, mas sentia a pulsao forte. As emoes invadiam as portas bem trancadas de seu corao, causando dor. Ela mesma fora abandonada quando criana e conhecia a sensao. Jamais se esqueceria... nem que vivesse mil anos.
Um pedao de papel caiu do cesto. Winona leu a mensagem:
Cara Winona Raye,
No tenho como cuidar de minha Angel. Voc  a nica a quem poderia fazer este pedido. Por favor, ame-a.
Com sua experincia policial, Winona imediatamente registrou vrios fatos. No havia como rastrear o papel e a impresso, comuns, a mensagem era simples, mas de algum que possua certa instruo, a me do beb de algum modo a conhecia... o bastante para saber seu nome e o bastante para acreditar que cuidaria do beb.
Claro que cuidaria.
Ps o bilhete de lado. No tinha tempo a perder. O beb estava molhado e, no frio de janeiro, isso era desconfortvel. Encostando a criana no ombro, levou-a para dentro da casa aquecida, sempre acalmando... sentindo um grande n na garganta.
Winona sabia o que tinha que fazer. Naquele momento, nada importava, a no ser cuidar daquele beb, garantir que permanecesse aquecido, seco, alimentado e saudvel. S depois tentaria descobrir quem o deixara diante de sua porta e por qu.
Inegvel era a ligao que Win j sentia com aquela criana surgida em sua vida havia poucos minutos. Sabia que o beb acabaria no sistema de adoo, porque era isso o que acontecia com crianas abandonadas. Mesmo que os pais se apresentassem, o juiz ainda manteria a criana aos cuidados do servio social, pois o ato do abandono implicava uma investigao para se apurar a verdadeira situao da famlia.
Winona conhecia todos os procedimentos legais, tanto por trabalhar com menores quanto por experincia prpria. Sabia que os sentimentos eram irritantemente emocionais, mas a ligao com o beb j se estabelecera. Uma terrvel necessidade de cuidar a impelia. J tomara a deciso, assustadora, de proteger aquela criana mais do que ela mesma fora protegida. De am-la como ela mesma jamais fora amada.

Havia vrias mquinas de caf espalhadas pelo hospital de Royal, mas s uma era boa. Ao trocar a traumatologia pela cirurgia plstica, Justin deixara de atender emergncias; porm, s dez da manh, sentia-se desesperado e corria para a mquina de seu antigo setor. Sonolento, introduzia as moedas no receptor, optava por caf preto sem acar, chutava a base, pois conhecia aquela mquina profundamente e aguardava.
O ritual se repetia naquela manh e, durante os trs minutos em que permaneceu ali, Justin recebeu inmeros cumprimentos e tapas nas costas: "Ol, dr. Webb, visitando os pobres?"; "Oi, doutor, sentimos a sua falta"; "Dr. Webb, que bom v-lo aqui."
Assim que a mquina despejou seu caf, tomou um gole. Sentiu o lquido quente descer pela garganta. O gosto era bem familiar. cido, amargo e concentrado de cafena.
Fantstico.
Tomou outro gole e olhou para o lado. No fim do corredor, alm das portas duplas de vidro, ficava a unidade de cirurgia plstica e queimaduras. A comunidade acreditava que aquela ala fora doada por um annimo, o que era adequado a Justin. Com dois anos de funcionamento, a unidade j era considerada a melhor do Estado. Ele no podia pedir mais. O equipamento era o melhor e a tecnologia, a mais avanada. As paredes pintadas de azul frio proporcionavam uma atmosfera estril, serena, tranquila. Perfeito.
Nada parecido com a catica sala de emergncia. O hospital era pequeno e bem administrado, mas a capacidade de atendimento da traumatologia era limitada. O acidente de avio naquela manh ainda ocupava a equipe de emergncia. Ningum tivera tempo de pegar as toalhas sujas de sangue e os restos de roupas cortadas s pressas. Uma criana saiu correndo, seguida pela me, que a chamava aos gritos. Uma enfermeira corria atrs dos dois, parecendo exausta. Justin ouviu choro de bebs e cdigos pelo sistema de alto-falantes. Luzes acendiam-se, telefones tocavam, enfermeiros carregavam macas. Algum derramou caf. Todos os estmulos visuais e auditivos eram exigidos. S de observar, Justin sentiu um aperto no peito.
Realmente, seu lugar era na unidade de cirurgia plstica e queimaduras. Fizera diferena ali. No queria mais saber da traumatologia. Nunca mais. Sorveu outro gole de caf e, desta vez, tomou o corredor sem olhar para trs... at que pensou reconhecer algum que saa de um consultrio.
 Winona?  Quase se beliscou para comprovar que estava acordado. Bastava olh-la para que os hormnios tomassem conta.  Win?
Ela levantou a cabea ao ouvir a voz. Ele logo notou que ela carregava um beb... no que fosse incomum ver Winona com uma criana na sala de emergncia. Seu trabalho sempre a colocava em contato com jovens, escolas, pais. Mas algo nos olhos dela davam a entender que aquele no era um dia comum em sua vida.
O sorriso, entretanto, era natural e familiar como o brilho do sol.
	Achei que voc estaria por aqui  disse ela.  Que manh, hein? Voc foi ao local do acidente?
	Sim, logo que soube. No sou especializado em atendimentos desse tipo, mas sabe como as notcias se espalham em Royal. Ligaram para mim porque, aps o acidente, seguiu-se um incndio e poderia haver casos de queimaduras. Vim correndo para c. Isto aqui estava um caos. Eu ajudei a estabilizar as vtimas, mais aquelas que iriam para a unidade de queimaduras.
Ela arregalou os olhos.
 No sabia que foi to grave. Algum caso muito srio?
Win estava diferente. Justin no dispunha de muito tempo, mas continuou conversando s para poder olhar para ela. Admirou-a da cabea aos ps, a cala jeans moldada a suas curvas, os cabelos desgrenhados, o rosto rosado devido ao vento frio... nada daquilo era estranho. Mas havia algo diferente no olhar. Um brilho. L estava ela, embalando aquele embrulho... o beb no emitia rudo... mas aquele olhar em Winona era novo. Vulnervel. E ela no era mulher de parecer vulnervel... no se pudesse evitar.
Uma maca toda ensanguentada passou entre eles, mas Justin no interromperia a conversa nem que o mundo desabasse ao redor.
	Podia ter sido pior. Pelo menos, ningum morreu. Num acidente de avio, chega a ser milagre. Robert Klimt... um dignitrio de Asterland... ficou inconsciente, uma concusso na cabea... no sei como ele est. Cuidei de algumas queimaduras menores e mandei-o ao neurologista. Pamela Miles tambm estava no vo...
	Eu sei, ela ia fazer um intercmbio de professores em Asterland... voc a viu, Justin? Sabe se ela est bem?
	No cuidei dela, mas fiquei sabendo que est bem. Lady Helena, entretanto...
	Ela se machucou?
	Bem, no corre risco de vida. Quebrou feio o tornozelo. E, assim que o ortopedista acabar, com certeza, ela passar para mim. Ela se queimou um pouco...
	Oh,  uma mulher to bonita  comentou Winona.
	Bem, a esta altura, todos os acidentados j esto aqui e recebendo cuidados.
	Voc no sabe qual foi a causa do acidente, sabe?
Ele ergueu a sobrancelha.
 Eu ia justamente perguntar isso a voc, srta. Oficial de Polcia. Se algum tem respostas, acho que so os policiais.
 Bem, normalmente eu estaria por l  admitiu ela.  Mas ocorreu um imprevisto.
Ela afastou o canto do cobertor cor-de-rosa para ele dar uma olhada. Justin finalmente interpretou aquele brilho no olhar. Era a maternidade, a mame leoa cuidando de seu filhote. Roou na mo dela ao tocar no rostinho do beb.
	No v me dizer que algum bateu nesta coisinha?  especulou, gentil.
	Oh, Justin. Foi exatamente como me senti. Ela no  linda?
Era to pequena ainda que Justin no sabia dizer se era bonita.
	O que aconteceu?
	Ela se chama Angel. Quando abri a porta de casa hoje cedo, indo para o local do acidente... ela estava l. Num cesto, na soleira, com um bilhete dizendo que se chamava Angel e que era para eu, especificamente, cuidar dela.
Justin acalmou-se.
 No  a primeira vez que voc tem que lidar com uma criana abandonada  lembrou.
	No, claro que no. Mas este beb  to novinho que, claro, tive que traz-la aqui primeiro. Hoje em dia, o abandono de um recm-nascido pode significar drogas, ou Aids, ou uma srie de outras possibilidades. Assim, antes de tudo, temos que conhecer o estado de sade da criana.
	E...
	E o dr. Julian considerou-a muito saudvel. Calculou que tem menos de trs meses.
	Ento, o prximo passo ...  Justin fitava Winona com toda a ateno.
	Encontrar a me, claro. Royal no  grande.
Se algum entende de crianas em dificuldade sou eu. Vou tentar encontrar os pais.
 E onde o beb vai ficar enquanto isso? 
Win o encarou com seus olhos azuis.
	Passei alguns anos no orfanato  comentou, revoltada.
	Eu sei.
	O sistema est superlotado. Mesmo numa regio to rica, h deficincias. Adoo  uma possibilidade para um beb com essas caractersticas fsicas... mas no para esta, pelo menos, no por algum tempo. Mesmo que eu me apressasse e conseguisse informaes rapidamente, no haveria como...
	Win, parece que est falando com um juiz num tribunal. Voc est falando comigo. O que est acontecendo? Voc quer ficar com o beb?  isso?
Ela baixou os ombros, perdendo toda a rigidez.
 No vo permitir que eu fique com ela. Sou solteira. E trabalho em tempo integral. Mas agora... principalmente hoje... a cidade est um caos devido ao acidente de avio. Assim, faz sentido se...
Justin ouviu seu cdigo no sistema de alto-falantes. Deu mais uma olhada no beb, que acabara de abrir os olhinhos azuis e fitou Winona.
	Ns dois estamos muito ocupados agora  observou.  Que tal se eu passasse na sua casa hoje aps o jantar?
	Voc no precisa fazer isso.
Precisava, sim, pensou ele. Precisava e muito.

CAPTULO III

Winona levava a primeira garfada  boca quando ouviu o choro do beb.
No conseguira almoar naquele dia e, pelo jeito, ficaria sem jantar tambm. No que se importasse.
Quem precisava de comida? Largou o garfo no prato e correu  sala.
 Estou indo, Angel... Estou indo!
Embora a distncia entre a cozinha e a sala fosse pequena, chegar ao beb tornava-se cada vez mais difcil.
A tarde, comentara o ocorrido com duas vizinhas, a notcia do beb abandonado espalhou-se e a ajuda no parava de chegar. A vizinhana era cheia de crianas, por esse motivo escolhera o bairro, e quase todo mundo tinha um carrinho de beb encostado na garagem ou na edcula dos fundos. Comprar qualquer coisa seria tolice. Winona nem sabia se ficaria com o beb, mas os vizinhos mostravam-se mais que generosos. J tinha meia dzia de bancos para carro, um par de cadeiras altas, vrios cercadinhos e andadores, mochilas para carregar o beb na frente, mochilas para carregar o beb nas costas, bolsas, brinquedos, inmeros cobertores e roupinhas. Aproximou-se do cesto de vime branco com fitas cor-de-rosa.
Dentro estava a princesa, j na quinta roupinha do dia. Era evidente que no aguentaria continuar naquele ritmo. Teria que apelar para as fraldas descartveis.
	Pronto, pronto...  Pegou nos braos o volume precioso e comeou a cantar, acariciando e embalando... os movimentos eternos das mes. Por dentro, sentiu o pnico crescer.
	Est com fome, fofinha? Fez xixi? Quer a televiso ligada? Desligada? Mais luz, menos luz? Mais barulho, menos barulho? Est com frio? Com gripe... no, pensando bem, tenho certeza de que no  isso. Est zangada? Aborrecida? Amuada? Triste? Seja o que for, eu vou cuidar de tudo, prometo. S no chore. Pronto, pronto...
O pnico era novidade. Durante todo o dia, Winona sentira-se no stimo cu. Planejava ter um beb havia um bom tempo. Claro, Angel no era sua e no era provvel que ficasse com ela por muito tempo. Tinha que ser realista. S que... carregar aquele beb parecia to natural quanto respirar. Precisara tomar inmeras providncias. Primeiro, levara o beb ao hospital para fazer exames. Depois, levara-a  delegacia e expusera o caso a Wayne, registrando a ocorrncia no computador, alm de telefonar para algumas mes na vizinhana buscando informaes. Passara numa mercearia para fazer compras. Quanto mais ocupada, mais o beb parecia apreciar. Finalmente, voltaram para casa.
Sozinhas.
A pequena Angel fizera jus ao nome o dia todo, at perceber que Winona estava sozinha. Como entender uma criana? O beb mal balbuciara o dia inteiro e, agora, no parava de berrar. Ou sentia falta da me, ou percebera estar com a me errada.
A campainha soou. Winona foi atender, implorando para que no fosse outro banco de carro ou cobertor. Estava com fome. Cansada.
Um pnico digno de pesadelo.
Antes que chegasse  porta, a maaneta girou e Justin enfiou a cabea pela fresta que se abriu. Ela sentiu o corao disparar e no havia como control-lo. Justin, aps um longo dia de trabalho, parecia to renovado quanto seu carro esportivo estacionado diante da casa. Parecia uma onda de energia, o rosto, os olhos, o sorriso, tudo radiante. Antes que ela dissesse algo, ele se adiantou:
	Win? Voc est a? Ali, bem, estou vendo que anda ocupada, hein?
	Justin, no pensei que estivesse falando srio sobre passar aqui... Entre, entre!  Winona desejou passar um batom e escovar os cabelos, mas que diferena fazia? Era s Justin. E no importava o quanto ele provocasse, estava espantada em v-lo ali.  O que voc sabe sobre bebs?  indagou ela, franzindo o cenho em meio ao berreiro.
	Nada.
Claro. Winona fechou a porta e a trancou. Justin estava preso. No estava mais sozinha.
	Voc  mdico, tem que saber alguma coisa...
	Sim, eu tento convencer meus pacientes disso h algum tempo.  Ele despiu a jaqueta, entrou na sala e estacou.  Oh, mas o que foi que aconteceu aqui?
	Que lhe parece? So coisas de beb. Doaes dos vizinhos. Oua, Justin, sabendo ou no alguma coisa... voc pode ficar com ela por um segundo, no pode? Eu s preciso de um minuto. Para lavar as fraldas e roupinhas e esquentar a mamadeira...
	Est bem.
	Eu no vou demorar...
	Est bem.
	No se assuste por ela estar chorando. Ela  um amor. Eu s tenho que descobrir o que ela quer.  s isso. Voc descobre qual  o problema, toma uma providncia e ela pra...
	Ora, Win. Acredite, est tudo bem. Eu vim mesmo para ajudar.
Estava tentada a acreditar em Justin, mas aquela oferta de ajuda parecia to improvvel... A cidade sempre considerara Justin um solteiro incorrigvel, mas Winona tinha outra opinio. Ele vivera alguma experincia na Bsnia e voltara diferente... mais quieto, mais reservado, e trocara a traumatologia por cirurgia plstica. Mas era to talentoso que sua fama de timo cirurgio plstico j se espalhava pelo sudoeste do pas.
A participao dele no Clube dos Pecuaristas do Texas tambm era outra atividade desconhecida pela maioria. Winona nunca se esqueceria de como o conheceu, aos doze anos, em seu primeiro dia com a famlia Gerard. Achara-o o rapaz mais bonito do universo. Mesmo adolescente, ele j tinha aqueles olhos sexy e o sotaque mais arrastado do Texas. E tinha um jeito de olhar para as mulheres... E um jeito de ajudar uma garotinha... e sua bicicleta... na calada.
Entretanto, o relacionamento entre eles sempre fora de provocaes incessantes. Justin aparecia para conhecer o camarada que a levaria ao baile de formatura, enfurecia-se quando ela tomava banho de sol de biquini e a pedia em casamento regularmente, como se achasse engraado. Ensinou-a a dirigir e... bolas, at a assistira enquanto vomitava aps sua primeira, e ltima, experincia com bebidas. Resumindo, ele sempre fora seu amigo... quando no se mostrava insuportvel.
	Como assim... veio para ajudar?  indagou, desconfiada.
	Exatamente isso.  Ele tirou o beb dos braos dela.  Mas no d para conversar com a srta. Berreiro aqui. V. Faa a mamadeira. Posso trocar a fralda se me disser onde fica o Q.G.
Ela levou a mo ao peito. S vinte e oito anos e j prestes a sofrer um ataque cardaco.
 Voc est se oferecendo para trocar a fralda? J teve esses sintomas antes? Est com febre? Tumor no crebro? Algum caso de loucura na famlia que nunca mencionou?
Em resposta aos insultos, ele lhe esfregou seus cabelos... como seja no estivessem desgrenhados... antes de se afastar com o beb. O telefone tocou seis vezes na hora seguinte e mais dois vizinhos doaram bancos de beb para carro e cobertores. Entretanto, por algum motivo, toda a confuso e correria pareciam diferentes com Justin ali. O fator terror desaparecera. Ao contrrio do que alegara, ele parecia veterano com a fralda e com o truque do arroto. Angel pareceu fazer as pazes com o mundo. J reconhecia a voz de Justin,  qual respondia balbuciando.
	Como todas as mulheres da cidade  resmungou Winona.
	O qu?
	Eu disse que Angel apaixonou-se por voc assim que a tomou no colo.
	, eu notei que ela parou de chorar. Voc acha que ela reconhece um camarada boa pinta, assim to novinha? Algum com classe, estilo, inteligncia... ai!
Win dera com a almofada na cabea dele. Justin riu. J eram oito horas. Angel tomara a mamadeira, arrotara, mudara de roupa e j estava no bero de vime. Winona nem se lembrava de como Justin a fizera se sentar e se alimentar. Agora, deitada no sof, balanava o bero com a ponta do p em meia. Justin... pela primeira e talvez nica vez na vida... estava ajoelhado a seus ps. Tinha de lhe dizer o quanto aprovava aquela posio.
	E onde todos os homens deviam ficar. Em posio submissa a seus superiores... no caso ns, mulheres, claro. Aguardando. Obedecendo-nos. Trabalhando para nos satisfazer...
	Se no parar j, vou a lhe fazer ccegas. Ento, voc vai rir e o beb vai acordar...
	Est bem, est bem. Voc tem razo. Eu no quero acord-la.  Mas era difcil no provocar Justin quando ele estava to bonito.
Ajoelhado no cho, ele tentava consertar um dos andadores, cercado de ferramentas e parafusos. Costumava v-lo voando baixo no carro esportivo, ou elegante nas festas. Talvez ele procurasse cultivar essa imagem, mas acreditava que ele tambm apreciava descalar as botas e relaxar.
A televiso estava ligada, mas nenhum dos dois assistia ao seriado. S se mantinham atentos a alguma reportagem sobre o acidente. Fora isso, era como se estivessem numa ilha sozinhos... mais o beb adormecido.
	Ento... o que o seu chefe disse sobre a situao de Angel?  indagou Justin.
	Bem, crianas abandonadas e maltratadas geralmente vm parar na minha mo, de qualquer forma; assim, Wayne no teve que pedir autorizao ao juiz para me entregar Angel. Foi automtico. Mas ele ficou surpreso quando apareci na delegacia com o beb. Todos estavam numa correria por l, atarefados com o acidente. Royal est cheia de policiais estaduais, federais, reprteres de televiso, de jornais, funcionrios do departamento de aviao e das relaes exteriores...
 Eu sei.  Justin aumentou o volume da televiso quando o noticirio anunciou novos dados sobre o acidente.  O pessoal do Clube dos Pecuaristas estava particularmente envolvido com os cidados dos dois pases. Ns nos oferecemos para ajudar e espero que as autoridades aceitem. Sei que eles tm que recolher todas as evidncias... mas voc pode imaginar como esse episdio est afetando a cidade. Todos querem saber a mesma coisa. O que obrigou o pouso forado? Talvez uma falha mecnica, mas podia ser um ato de terrorismo ou sabotagem?
Justin continuou com as consideraes:
 Pelo que sei, esse jatinho em particular tem um histrico impressionante e  considerado um dos mais seguros na categoria. E era uma verso super luxuosa; no fizeram economia nos itens de conforto e segurana.  difcil acreditar na tese de simples falha mecnica... como se no houvesse manuteno.
Winona pegou uma almofada e a pousou no colo. No conseguia desviar o olhar de Justin. Pelo que sabia, ele j era um multimilionrio... o que tornava mais divertido v-lo brigando com uma chave de fenda.
	E l na delegacia? Os policiais desconfiam de alguma sabotagem?
	No havia nenhuma evidncia disso hoje  tarde... mas  cedo para afirmar. Eles podem ter colhido todas as evidncias, mas levaro semanas para emitir um laudo. Todo mundo sabia da tenso que havia entre Asterland e Obersbourg... por outro lado, a festa foi a primeira atividade conjunta dos dois pases em mais de uma dcada. Acho que tem razo, Justin. Voc e os membros do clube deviam entrar na investigao, tanto para questionar quanto para aconselhar. Ficarei surpresa se no pedirem a sua ajuda.
	Eu no estava to envolvido quanto outros membros. Mesmo assim, quero ajudar, se houver chance. S que no conhecia todas as pessoas envolvidas.  Justin acabou de montar o andador e o experimentou sobre o tapete. Insatisfeito, virou o aparelho para ajustar mais.  E assustador. Pensar que jantou com algum, cumprimentou, brincou e riu... e essa pessoa podia estar fazendo algo que poderia levar a um acidente fatal.
	Ou que algum tinha a inteno de machucar aquelas boas pessoas.  Winona se inclinou para a frente para ver o cesto. Importava-se com o acidente, importava-se com o trabalho; entretanto, naquele momento... o dia inteiro na verdade,., s uma coisa dominara sua mente e seu corao.
 Voc no vai acord-la novamente, vai?
Winona ficou boquiaberta.
 Est louco? Posso ser me h poucas horas, mas foi uma das primeiras coisas que aprendi. Nunca acorde um beb. E se voc a acordar, vou mat-lo.
Ele riu, mas logo ficou srio.
	Ento, o que vai acontecer com ela? Qual  o procedimento legal?
	Bem, a primeira providncia voc j sabe. Uma criana abandonada comea fazendo um exame mdico para saber se h alguma doena. No h como alojar um beb... mesmo temporariamente... sem saber o quadro clnico. Mas essa etapa j foi cumprida. Ela no podia ser mais saudvel.
	Sim, voc disse hoje cedo. E depois?
	Depois, normalmente, ela seria levada ao servio social e eles providenciariam um lar adotivo provisrio.  Winona abraou a almofada.  O juiz vai entrar em cena assim que soubermos mais sobre os pais. E esse  o meu servio. Encontrar os pais. Principalmente a me. E preciso conhecer a histria e o motivo do abandono.
	E como voc far isso?
Era estranho, mas ela e Justin nunca conversaram sobre seu trabalho.
	H vrias formas de buscar pistas. Agora que sei a idade aproximada do beb, posso verificar os registros nos hospitais procurando identificar as mes que deram  luz no perodo. Ento, analiso as fichas. Pesquiso tambm as ocorrncias nas salas de emergncia, nos servios contra abuso e violncia, mortes, tudo o que aconteceu por volta da data do abandono do beb. Tento estabelecer alguma ligao.
	E depois?
	Ento... bem, depois disso, vou direto para os casos de crianas em risco. Apesar de Royal ser uma comunidade rica, os problemas existem. Tanto entre os ricos como entre os pobres, h crianas crescendo sozinhas, sem ateno, filhas de pais viciados em lcool ou drogas. Divrcios, ausncia. Sempre essas crianas acabam se encrencando. Ento, procuro no computador os casos de desaparecimento, fuga.
	E...
	Ento, verifico o banco de dados que listam os vadios, os detidos. Vou s escolas e seleciono as meninas com muitas faltas. Converso com as assistentes que tiveram casos de gravidez. Comecei um trabalho hoje  tarde, mas  muito difcil encontrar respostas da noite para o dia. Geralmente leva algum tempo.
 Est bem, Win... mas e se voc no conseguir localizar a me depois disso tudo?
Ela franziu o cenho.
	No  o caso. Ainda  cedo. Acredite em mim, eu vou encontrar a me. J fiz isso antes.
	Mas e se no encontrar?  insistiu Justin.
	Bem, ento, h outras possibilidades. Uma garota com problemas  a possibilidade mais lgica. E, modstia  parte, eu sou mais que qualificada para encontrar essa garota.
	Eu sei que , Win.  A voz de Justin saiu baixa.  Voc sabe como se sente a criana abandonada. Eu no me surpreendi quando decidiu trabalhar com jovens. Mas voc pode no encontrar os pais...
	Sim, claro. E quanto a Angel... a me possivelmente  casada com um marido violento ou algo assim... isso significa que no vai aparecer em nenhum registro. Na verdade, algum assim  quase impossvel de se encontrar. E outra possibilidade...
	Qual?
	Outra possibilidade  uma garota ter escondido a gravidez durante os nove meses. Parece impossvel, mas sabemos que acontece... voc ouve essas histrias de vez em quando nos noticirios. Mas, no caso, seria mais difcil, pois o beb j tem alguns meses. De qualquer modo, deve haver algum registro. E se algum tentou manter a gravidez em segredo, com apoio, talvez nunca saibamos quem  a me.
	Certo. Ento, cobrimos os cenrios possveis. Mas o que vai acontecer com esta princesinha aqui enquanto voc faz essa busca?
Winona levou a mo ao estmago, sentindo um aperto diferente.
	Bem, o juiz vai mand-la para um lar adotivo ou orfanato, atravs do servio social. Como eu j lhe disse.
	Eu sei o que voc me disse, Win  afirmou Justin, gentil.   por isso que estou pedindo detalhes, para entender melhor a situao.
	Potencialmente, l no final da linha, ela poder ser adotada. Ela  novinha, saudvel e tem o tipo fsico mais procurado. Mas, para que isso acontea, teremos que encontrar os pais, descobrir se eles deliberadamente a abandonaram e no a querem mais. Ou podemos descobrir que os pais morreram. Por outro lado...
	Sim, esse "por outro lado" aconteceu com voc, no foi?  Justin sentou-se no sof a seu lado.  Voc estava no sistema de lares adotivos desde os seis anos, certo? Mas, por algum motivo, voc no pde ser adotada. Eu me lembro dos comentrios quando os Gerard trouxeram-na para casa. S no me lembro dos detalhes.
	No havia muitos detalhes. Eu no podia ser adotada porque minha me era viva e podia me requerer a qualquer momento. Assim, fiquei no sistema de lares adotivos at os dezoito anos.
	Voc nunca mencionou a sua me antes, nem sobre sua infncia.
Ela deu de ombros.
 A histria dos meus pais  a mesma que se repete desde o comeo da histria. Dois jovens apaixonados. Quando minha me engravidou, abandonaram os estudos. Dois adolescentes inexperientes, sem dinheiro e sem profisso... provavelmente achavam que podiam viver de sexo e amor. O engraado  que no durou muito tempo. Meu pai morreu... um acidente de carro ou algo assim. No me lembro dele, mas fiquei com minha me at os seis anos.
	Foi quando ela sumiu.
	Eu acreditava que um dia a encontraria e ainda procuro nos bancos de dados, s vezes. A questo  que na poca eu no entendia, mas agora consigo me colocar no lugar dela. Sozinha, sem dinheiro, com uma criana pequena, um pouco de drogas aqui e lcool ali, sem profisso e ficando mais desesperada a cada perdedor com quem se juntava.
Justin olhava-a pasmo.
	Win... por que nunca contou isso antes?
	Porque no havia nada a dizer. Trabalho com garotas como a que minha me foi todos os dias. O erro dela foi se apaixonar... ou melhor, cair em tentao... quando era muito jovem.
Justin meneou a cabea.
 Eu me lembro de minha me conversando com meu pai. Sei que voc foi abandonada quando era criana com um bilhete onde sua me dizia que voltaria to logo pudesse, ou algo assim. Lembro-me dos Gerard ficarem furiosos.
Winona piscou, espantada.
 Os Gerard ficaram furiosos? Por qu? 
Ele ergueu a mo.
 Eu tinha dezessete anos, Win, e no prestava muita ateno aos acontecimentos da vizinhana. Mas parece que Sissy Gerard viu voc numa feira estadual com sua famlia adotiva. Ela no gostou nada da maneira com que eles a tratavam e contratou um advogado para obter sua guarda... e garantiu que os Gerard seriam sua famlia definitiva at a idade adulta.
	Eu no sabia. Nem me lembrava disso  admitiu Winona.  Eu me lembro dos Gerard. De Sissy e Paget no escritrio do servio social. Sissy abraou-me como se me conhecesse. Eles so to bons.
	Sim, so.  Justin levou a mo ao queixo.  E voc foi terrvel. Esmurrava quem era gentil com voc. Cuspia nos meninos. Brigava no parque...
Ela riu.
	Ora, seu bandido, de que lado voc est?
	Do seu. Sempre do seu. Ento, este beb vai para o sistema de lar adotivo. Logo.
	No.
	Como assim, no? No foi o que acabou de me explicar?
	O beb ter que ir a algum lugar... um lugar credenciado pelo servio social e aceito pelo juiz... at que se defina sua situao. O sistema est lotado. Mas algum pode requerer a guarda provisria, se preencher os requisitos.
	Win.
	Sim?
	Voc quer ficar com ela, no quer?
	Eu no quero que ela v para o sistema de adoo para ficar perdida como eu. Eu me apaixonei por ela assim que a vi, admito. Quem a deixou na soleira da minha porta me conhece, Justin. No d para ficar alheia; quero ter certeza de que ela ficar bem, at voltar para os pais. Para tanto...
	Voc quer ficar com ela.
	Eu no quero que ela v para o sistema de adoo  repetiu Winona. No queria contar detalhes do sistema, da sensao de abandono... Tinha que transformar aquela conversa sria em brincadeira. Que tal se, pela primeira vez, pedisse Justin em casamento? Ele j fizera isso tantas vezes...  Normalmente, o juiz no consideraria uma trabalhadora solteira como boa opo para guarda temporria. No quer se casar comigo, Justin? Isso aumentaria minhas chances.

CAPTULO IV

Justin sentiu o corao parar e, ento, disparar.
Winona no estava realmente pedindo-o em casamento. Logo percebeu. Casamento era uma brincadeira frequente entre eles, porque ele j a pedira muitas vezes. Winona sempre presumia que ele estava brincando, assim, era perfeitamente natural que ela brincasse da mesma forma.
Havia algumas pequenas diferenas, entretanto.
Ele sempre estava disposto a levar a brincadeira at o fim...
O aparecimento do beb na vida de Winona parecia afet-la. Ela nunca admitia que precisava de ajuda para nada... e, com certeza, nunca lhe daria a oportunidade de se adiantar e oferecer ajuda. No entendia a complexidade da presena daquele beb na vida dela, mas tinha uma certeza: aguardava aquela chance... qualquer chance... de ficar com ela havia anos. E no deixaria escapar.
 Aceito, vamos nos casar  respondeu, descontrado.
Pela primeira vez naquela noite, Winona relaxou a tenso no rosto e desatou a rir.
 Claro. Sem problemas. Consiga a licena e marque no cartrio de paz. Exatamente o que voc planejava para esta semana.
 Na verdade, parece-me bem divertido.  Ele se recostou e estendeu as pernas longas como se no tivesse nada mais a fazer.
Ela ainda ria.
	Imagino as manchetes na coluna social no domingo. O solteiro mais cobiado de Royal finalmente foi algemado por uma policial. E tenho certeza de que haveria comentrios sobre a noiva ter que largar a caminhonete velha e sofrer para dirigir aquele carro esportivo... sem mencionar todos os dissabores por ficar podre de rica...
	Cale-se, Win. Eu sei que estava brincando, mas por que no pensa no assunto? Voc parecia estar falando srio sobre querer ficar com o beb.
 Eu estava. Estou... mas ora, Justin, eu no estava falando srio sobre casamento. Era s uma brincadeira. Isso no resolveria nada, porque a me de Angel vai aparecer a qualquer momento. Hoje, ainda. Ou amanh...
	E talvez nunca aparea. Mas mesmo que ela venha  sua porta daqui a algumas horas, o juiz no vai lhe devolver o beb. No foi o que disse? Portanto, Angel vai ficar em algum lugar por algum tempo... e pode ser um longo perodo. Longo o bastante para fazer diferena em sua vida, para melhor ou para pior.
	Eu sei, eu sei.  isso o que me aborrece.  Win passou a mo pelos cabelos, levantando os cachos, e encarou-o.  No suporto imaginar que ela ser colocada num lugar ruim. Tudo o que gostaria era poder cuidar dela at sabermos o que vai ser de sua vida. Eu sei que a amaria. E que quase tudo  melhor do que cair no sistema de adoo.  loucura, eu sei...
	Win, eu no me importo se  loucura ou no. Se eu entendi o que me explicou, o juiz poderia lhe conceder a guarda temporria, se fosse casada. Verdadeiro ou falso?
	Verdadeiro. Alis, eles me considerariam de qualquer forma, mas para logo descartar. No conheo nenhum caso onde a guarda foi dada a uma mulher solteira. No aqui. Portanto, desista. O juiz prefere uma famlia completa, com pai e me...
	Ento, vamos nos casar.
Ela tentou responder e acabou caindo na risada novamente. Conseguiu parar, mas ainda soluava.
Quando Justin ergueu a mo, Winona adivinhou que queria beij-la. Ao lhe tocar o rosto e afastar os cabelos com gentileza, teve certeza. Afinal, isso ele sabia fazer bem...
Mas ele nunca a beijara antes. Nenhum tipo de beijo. Talvez por saber que nenhum beijo seria simples. No com ela. No para ele.
Winona no esperava o beijo, pois franziu o cenho e arregalou os olhos, surpresa, quando Justin se aproximou. Mesmo enquanto ele lhe afastava os cabelos, ela no reagiu. Quando ele roou os lbios nos seus, ela no se afastou. Permanecia imvel como uma esttua.
Com o detalhe de que nada em Win lembrava uma esttua fria. Ela parecia frgil. Macia. Quente. Encantadora.
Ela emitiu um som fraco quando o beijo aconteceu. Winona raramente usava perfume, mas mesmo assim ele se viu cercado por seus aromas. Ela ainda tinha o gosto do capuccino. Os cabelos desgrenhados exalavam o aroma de morangos do xampu. E havia a fragrncia dos cremes hidratantes para rosto e mos, devido  pele seca. Amndoas. Baunilha. Morango. Tudo identificvel.
Como ela.
Ela emitiu outro som e lhe agarrou os braos, como se fosse empurr-lo. Mas no fez isso. Ao contrrio, alojou-se melhor para aproveitar o beijo e fechou os olhos, como se a iluminao da sala de repente irritasse. Um noticirio na televiso, que eles deviam estar acompanhando, entrou no ar e foi ignorado.
Aqueles primeiros beijos tornaram-se mais profundos, mais sedosos, mais sedutores. Winona levou a mo ao pescoo enquanto suas lnguas se reconheciam. Justin aprofundou o beijo, percebendo que Winona se contorcia, gemendo zangada, suspirando. Quando pensasse naquilo mais tarde, teria que rir. Winona nem sabia que o desejava.
Nem Justin. Ele tinha certeza de que o desejo brotava somente nele. Sim, havia algum tipo de amor. Do tipo fraternal, que, apesar do afeto, podia levar a atos de violncia num momento de irritao. Do tipo que se tinha por um amigo que conhecia seus segredos de infncia. Era um bom amor. Toda forma de amor valia a pena. Mas no era o tipo de amor entre homem e mulher.
Justin queria tirar as roupas de Winona, v-la nua e sensual. Queria tocar sua pele.
Mas havia um beb adormecido a menos de um metro. E aqueles beijos geravam perguntas que ele nunca imaginara poder formular. Fogo ou no, desejo ou no, Justin temia perder as respostas se fosse rpido demais.
Com isso, encerrou a sesso. Recuperou o flego, acariciou-a e encostou a testa na dela, de olhos fechados, adorando ouvi-la ofegante.
Por fim, relaxou e sorriu.
 Ora, Win... Eu sou muito rico. Voc sabia, no sabia?
Ela franziu o cenho, parecendo confusa.
	Eu devia me importar com isso?
	Sim. E importante.  importante porque eu consigo viabilizar nosso casamento rpido. E consigo obter a guarda temporria legal. Voc quer o beb? Ns podemos garantir isso.
	Justin...  Ela engoliu em seco quando ele se levantou.
Ele calou os sapatos e procurou a jaqueta, mas acabou encarando-a novamente.
 No sei sobre voc e eu. Mas nos conhecemos h muito tempo, Winona. E volto a lembrar que tenho recursos para agilizar essa questo. Os recursos que tornaro tudo mais fcil para ns... No tenho compromisso com nenhuma mulher no momento. Voc tem algum namorado?
Ela piscou. 
	No.
	Vamos. Quero que seja franca. Deve haver algum camarada...
	No h.
Justin no conteve um riso. Depois de afofar os cachos dos cabelos dela, pegou a jaqueta e saiu. Sim, deixara uma proposta pairando entre eles. Mas no permitiria que Winona Raye dissesse sim no calor do momento.
Saindo naquele instante, ele lhe daria a chance de dizer no.
No era apenas um progresso. Para Justin, era meio caminho para o cu.
Winona ajeitou o beb junto ao ombro e andou pela casa, de uma janela a outra, embalando, confortando. O carro esportivo de Justin no estava mais na frente havia uma hora, mas ela continuava olhando para a rua. Talvez a visita tivesse sido uma miragem. Ou talvez o dr. Webb houvesse colocado alguma droga em seu caf, porque sentia caminhar na terra de Oz.
Angel balbuciou adormecida e Winona sorriu. Continuou andando e embalando, andando e embalando. Imaginava se Justin a pedira em casamento seriamente.
Ora, era engraado.
To engraado que, embora o beb dormisse profundamente e apesar de estar muito cansada, continuava andando pela casa no escuro.
Ele lhe perguntara se tinha namorado. E pareceu feliz quando ela disse que no havia ningum.
A meia-noite, abriu a geladeira para pegar o leite. Serviu-se de meio copo e voltou para o quarto. Enfiou-se debaixo do lenol azul, ajeitou o travesseiro e contemplou a lua cheia e as estrelas pela janela.
O que Justin pretendia, beijando-a e pedindo-a em casamento... Francamente... Tinha que conversar com ele. Tinha que ajud-lo, j que eram amigos. Deixaria claro que entendia que ele no a pedira em casamento de verdade.
Dois dias depois, dirigindo seu carro at o local do acidente de avio, Justin pensava em Winona, em casamento, em amor. Mas, ao aproximar-se do cenrio de destruio, concentrou-se no trabalho.
Ainda havia uma barreira policial cercando o local, protegendo a aeronave de estranhos e curiosos. Um policial reconheceu o carro de Justin e deu passagem.
A estrada continuava por vrios metros e se fundia a um deserto plano e duro. Aps as chuvas de primavera, o solo se tornaria mais acolhedor  vegetao, a uma forrao rasteira, no mnimo; porm, no momento, no era o local mais hospitaleiro do Texas. Muitos carros podiam atravessar o deserto sem problemas, mas Justin tomava o maior cuidado com seu esportivo. Finalmente, a fuselagem do avio surgiu no horizonte. Quando Justin saiu do carro, um vento frio lhe lambeu o rosto e irritou os olhos.
 Justin!
Eleja reconhecera os outros dois membros do Clube dos Pecuaristas do Texas... e seus carros prticos e robustos... mas, por um segundo, a viso do que sobrara do avio tomou-lhe toda a ateno. Ao ouvir o chamado, entretanto, foi ao encontro dos amigos. Como sempre, Dakota Lewis no se intimidava com a manh fria de janeiro e tinha a jaqueta aberta. Matthew Walker apresentava o nariz e o rosto avermelhados como o seu.
 Desculpem o atraso  pediu.  Tive problemas para ligar o carro. Um dia desses, viro adulto e compro um carro srio.
	Acabamos de chegar  afirmou Dakota. Mais uma vez, Justin olhou ao redor.
	Uau,  de gelar a espinha.
O avio estava quase intacto e era bizarro ver aquele volume prateado, estranho ao deserto, parado e silencioso. Uma concentrao de tecnologia em meio a cobras e coiotes.
	Ainda estou surpreso com o chamado dos policiais  comentou Matthew, enquanto se aproximavam do avio.
	No acho que tenha sido idia da polcia. Desconfio de que tenha sido a famlia da princesa Anna. Ningum em Asterland ou Obersbourg tem contato na Amrica, exceto pelo clube. Assim, acho natural que eles nos queiram nas investigaes. Eles nos conhecem e confiam em ns.  Dakota entrou primeiro no avio.  Seria diferente se alguma evidncia tivesse sido descoberta como causa do pouso de emergncia. Claro, um incndio  o modo mais eficaz de destruir provas. Mas, no momento, acho que todo mundo est preocupado com sabotagem. Se algumas respostas no surgirem logo, no ficaria surpreso se Asterland enviasse sua prpria equipe de investigao.
	Bem, eu entendi, mas voc est aposentado da Fora Area  disse Matthew a Dakota.  Se algum est em casa aqui,  voc. Eu gostaria de ajudar, mas no consigo imaginar nada.
	Eu tambm  disse Justin.  Mas acho que podemos ver o local com outros olhos. Especialistas j fizeram uma varredura por aqui, mas ns somos os nicos que conheciam os passageiros. Podemos encontrar algo que os outros no acharam importante.  Franziu o cenho.  Mas pensei que Aaron e Ben tambm viriam.
Dakota assentiu.
	Ben vem. Ele ligou no meu celular h pouco dizendo que ia se atrasar. Aaron, no, pois viajou para Washington h alguns dias e ainda no voltou.
	Ele foi para Washington? Por causa desse acidente?  indagou Matthew.
Dakota meneou a cabea.
 No sei o que Aaron foi fazer. Pensei que ele estivesse de licena do trabalho diplomtico para as festas de fim de ano. Ele parecia descontente com alguma coisa.
	Eu tive a mesma impresso  concordou Justin.
	E eu tentei conversar com Aaron na festa, mas ele no largava aquela professora de sorriso amvel. Qual  o nome dela? Pamela?
	Pamela Miles  confirmou Justin.  Ela tambm estava no avio.
	Bem, ela no pensava em livros e cadernos na hora da festa... Nem cheguei a falar com Aaron e ele viajou naquela noite mesmo. E enquanto isso...
Enquanto isso, eles percorriam a cabine do avio.
	Mas que caos  resmungou Matthew.
	Podia ter sido pior  comentou Justin.
	Muito pior.  Dakota avaliou a cabine do piloto, com a qual era muito mais familiarizado do que os outros.  Voc viu como estava, Justin.
	Porque cheguei logo aps o acidente? Sim, acho que sim. Mas s vi as pessoas. Pacientes. S estava procurando por gente. No prestei ateno ao avio.
	Bem, vou dizer o que acho. O fogo comeou aqui...  afirmou Dakota, indicando dois bancos.  Robert Klimt estava sentado aqui e lady Helena, aqui. Por isso mesmo, os dois foram os que mais se feriram.
Os trs tinham uma lista de passageiros e um diagrama mostrando onde cada um estava sentado. Ainda no fora permitida a retirada de pertences pessoais e o local continuava molhado, com cheiro de queimado e de produtos qumicos.
	Ainda que parea ruim,  como olhar para um milagre  comentou Matthew.  No sei como algum saiu andando daqui.  fcil imaginar o local em chamas.
	. Se foi um ato terrorista, espero agarrar o culpado. E logo.
Continuaram vasculhando o local  procura de pistas. Algo chamou a ateno de Justin. Ele se ajoelhou, franziu o cenho e, no cho acarpetado, perto do lugar de lady Helena, viu algo espantoso.
	Matt. Dakota.
	O qu?  Matthew inclinou-se, mas Justin o impediu de tocar no objeto.
Dakota aproximou-se, sentindo que algo importante fora localizado.
 Isso no pode ser o que eu acho que   disse Justin.
As duas pedras estavam lado a lado no carpete, no se diferenciando do resto de material queimado ao redor. Um leno. Uma luva preta. Cinzas e restos de material queimado. Mas as duas pedras contrastavam do restante.
Uma era a opala preta multicolorida.
A outra, uma esmeralda de trs quilates.
Os trs entreolharam-se. No havia dvida sobre as pedras. Justin lembrou-se de Riley Monroe na festa, narrando a lenda local a um dos visitantes de Asterland.
Matthew meneou a cabea.
	No estou entendendo. Algum tentou roubar as nossas pedras? Mas no achava que algum acreditasse que elas existiam... e muito menos que algum desconfiasse de onde elas estavam escondidas todos esses anos.
	Nem eu. Na verdade, nada disso faz sentido. Se houvesse uma tentativa de roubo  noite, Riley Monroe teria nos chamado imediatamente e, de dia, h muitas pessoas no clube e logo saberamos tambm.  Justin levantou-se. Dakota tambm se endireitou.  O mais assustador  que... elas foram roubadas e ento... onde est o diamante vermelho?
Os trs praguejaram e comearam a procurar por toda parte.
	No faz sentido o ladro levar essas duas pedras e deixar o diamante  murmurou Dakota.
	O roubo no faz sentido  afirmou Justin, e ento praguejou.
	O que foi?  indagou Dakota.  Encontrou? O diamante vermelho?
No, no encontrara o diamante. Era s um pedao de papel e no teria lhe dado importncia se no tivesse lido a palavra "esmeralda". Aps breve anlise, concluiu que era papel de Asterland.
	No sei o que   avaliou Justin.  No  uma carta. No parece ser endereada a ningum. Mas algum transcreveu a lenda sobre as jias. A histria toda. O soldado texano... o encontro com o companheiro quase morto na guerra do Mxico...
	Que mais?  Matthew no estava lendo, como os dois.
	Acaba com a explicao do lema do clube: liderana, justia, paz  concluiu Dakota.
	No entendo  disse Matthew, irritado.  Todo mundo sabe sobre a lenda. Mas quem sabia que as pedras existiam de verdade? E quem sabia onde estavam guardadas? E o diamante vermelho? E... vocs acham que h relao entre o roubo e o acidente?
Justin ergueu a mo.
 No sei como poderia, mas no d para ignorar a coincidncia.
Dakota logo tomou uma deciso.
 Precisamos nos reunir... com Ben e Aaron. Mas, antes disso, algum precisa ir ao clube e ver se o diamante ainda est l. Precisamos falar com Riley Monroe e descobrir o que aconteceu.
Justin passou a mo nos cabelos.
 Posso ir ao clube, se quiserem... mas, para ser honesto, vou ter dificuldade em comparecer a uma reunio... s  possvel  noite... digamos, s oito. Tenho que cuidar de alguns pacientes at l. Tambm posso cancelar tudo...
	No, Justin. Eu tambm prefiro deixar para mais tarde  comentou Matthew.  Assim, Ben poder nos encontrar e Aaron talvez esteja de volta, tambm.
	Sim, eu concordo.  Dakota assentiu.  Mas eu mesmo vou ao clube, pois tenho que saber o que aconteceu ao diamante. Estamos combinados para as oito horas, ento.
	Voc quer levar as pedras?  indagou Justin.
	No. Se o cofre estiver quebrado, precisaremos decidir o que fazer. Fique com elas at l. Ali... eu queria sugerir que voc tomasse cuidado com o que diz a Winona Raye.
Justin ficou espantado.
	Por que acha que vou ver Winona?
	Porque todos ns vimos como voc olhava para ela na festa  acusou Dakota.  No momento, a polcia no sabe sobre as jias ou o roubo... muito menos uma possvel ligao com o acidente. Se a informao vazar pode ser pior. Mas ela bem que poderia nos avisar de qualquer novidade sobre o acidente entre os policiais, pelo menos at sabermos mais sobre o ladro e decidir o que fazer.
Justin assentiu e os trs separaram-se.
J fazia dois dias que no via Winona, s lhe falara por telefone. No pretendia envolv-la no caso das jias. S queria envolv-la num relacionamento pessoal. E nenhuma pedra valiosa o manteria afastado dela. No naquele dia. J lhe dera tempo suficiente para pensar.

CAPTULO V

Winona! Winona  mal  empurrara  a porta da lanchonete quando a garonete gritou seu nome. Sheila abandonou um cliente e correu a seu encontro.
	Fiquei sabendo de voc e o beb. Vamos ver!  Embora ainda fosse cedo, o local j comeava a encher. No eram pessoas preocupadas em jantar tarde, com estilo, mas sim em colocar as crianas logo na cama. Sheila fez uma bola com o chiclete de frutas enquanto conduzia Winona e o beb para uma banqueta no fundo da lanchonete, sem parar de falar um segundo... alto, claro, para todo mundo ouvir:
	O dr. Webb ligou. Disse para instal-la num local tranquilo e ir servindo. Ele vem, mas se atrasou com um paciente. Quer dizer que est saindo com o dr. Webb? Ele  bonito; podia at pensar numa reduo de seios s para ele colocar as mos em mim... Oh, acho que no devo, certo? Se voc est saindo com ele... Mas no se preocupe comigo, querida, ele nem olha para mim... e mal posso esperar para ouvir a histria desse beb. Vamos ver, vamos ver... bem, voc  mesmo uma gracinha, querida.
Sheila ajeitou o uniforme que tendia a lhe subir pelos quadris a cada passo. Havia anos, Winona percebera que Sheila no considerava comprar um uniforme maior, pois esforava-se para reduzir o manequim, sem sucesso, porm insistia em roupas do tamanho sonhado. Abrindo o cobertor, ela ergueu Angel emitindo uma srie infindvel de exclamaes e chamegos.
O beb remexeu-se, alegre com a ateno, e Winona decidiu deixar Sheila viver. Na verdade, estava cansada demais para mat-la, por conta de seus comentrios constrangedores. Despiu a jaqueta e ajeitou-se na banqueta, desejando uma boa dose de usque em vez de gua... isso porque nunca bebia. O problema era que, nos dois ltimos dias, no fora apenas Sheila a especular sobre seu relacionamento com Justin.
No fazia sentido. As pessoas deviam estar mais interessadas no acidente de avio. Aquela era a crise importante na cidade. Aquilo era novidade. Com quem Winona se encontrava ou deixava de se encontrar no devia importar a ningum.
O mais incrvel era que no estava se encontrando com Justin. Pelo menos, no propriamente. Sim, ele a pedira em casamento... bolas, por isso insistiu em v-lo naquele dia, no jantar, escolhendo um lugar pblico de propsito... mas no havia motivo para ningum, de Royal a Austin, achar que ela estava "saindo com ele". Ora, eleja a pedira em casamento umas cinquenta vezes antes. E a maioria dos moradores j a vira batendo nele mais vezes ainda.
 Bem, est certo, querida. Se quer manter segredo, no contarei a ningum.  Sheila colocou o beb de volta ao carrinho.  Mas espero que no leve a mal a curiosidade do pessoal. Ns todos gostamos de voc, todos a conhecemos.  Tirou um bloco de anotaes do bolso.  Ela no parece latina, nem ndia, nem mexicana. No com esses cabelinhos loiros e olhos azuis... ainda no encontrou a me?
 No.
Sheila pegou uma caneta.
	Ento, o que vai querer? O dr. Webb, lembre-se, disse para voc ir pedindo na frente.
	Na verdade, preferia esperar por ele...
	No, no. Ele disse que voc estaria cansada de tanto trabalhar e cuidar do beb o dia todo. Vai chegar s dez minutos atrasado, mas quer que voc v jantando. A sugesto de hoje  costeleta de porco.
	Estava pensando numa salada...
	Ora, no vai ficar forte comendo folhas, querida. E os homens gostam de mulheres robustas, voc sabe. J viu a torta de morangos que temos hoje? Quer que eu esquente a mamadeira? Voc est dormindo com o dr. Webb?
	Salada de milho. Sem sobremesa. Sim, obrigada pela mamadeira, eu trouxe uma na bolsa. E no  da sua conta.
Sheila ergueu o sobrolho.
	Ora, querida. Com os Gerard fora nos meses de inverno, quem vai lhe dar conselhos? Mas vejo que no enrubesceu com a pergunta. A gente pode esnobar alguns homens que eles no desistem. Mas o dr. Webb... eu no arriscaria. Muitas garotas esto de olho nele. Ele  uma graa e  rico. Se puder, agarre-o e no permita que ele olhe para os lados!
	Obrigada.  Winona massageou as tmporas.  Quer dar conselho sobre mais alguma coisa? Desodorantes? Hemorridas? Gripe?
	Ora. Voc est com fome, por isso o mau humor. Vou trazer as costeletas e o pur de batatas com queijo. Acredite em mim. Voc vai adorar. E todo mundo est querendo saber se Wayne vai deixar que voc leve o beb para o trabalho.
	Estou com o beb temporariamente. Vamos ficar assim por alguns dias. Mas, claro, no colocaria o beb em perigo.  que leva algum tempo para conseguir uma resposta...
	Sim, sim.  Sheila acenou, dispensando a resposta padro.  Ento, j contou aos Gerard sobre o beb?
Winona suspirou. Era mais fcil responder logo do que se desviar das perguntas.
	Sim. Eles ainda esto de frias no Japo e se divertindo muito. Conversei com eles h duas noites.
	Eles a amam.  Sheila distribuiu os talheres, contornando o carrinho de beb. Dois outros clientes acenaram, mas ela os ignorou.  E tenho certeza de que ficariam felizes se voc namorasse o dr. Webb, porque os Webb e os Gerard sempre foram amigos. E, na sua idade, querida, acho que eles esperam que... como devo dizer, se envolva fisicamente...
Winona apoiou o queixo nos punhos.
 Est bem. Eu desisto de negar. Estou transando selvagemente com o dr. Webb. Se isso faz todo mundo feliz, diga  cidade, ao pas...
Ela se calou ao ver outro rosto atrs da garonete... Justin sorrindo largo.
 Ora, querida. Por favor, no d detalhes da nossa vida sexual a Sheila. Voc no contou o que fizemos h duas noites no carro, contou?
Habilmente, como se fossem casados h anos, ele a beijou na testa, acariciou o queixo do beb e ocupou a banqueta ao lado.
	Sheila, s tenho quarenta minutos. Quero um hambrguer gorduroso, com churrasco e muita batata frita...
	Deixe comigo, querido.  Sheila foi passar o pedido.
Winona levou um segundo para se recuperar. Havia cinco minutos, no tinha problema nenhum, mas, de repente, seu corao disparara com aquele beijo desajeitado na testa.
Sentia o olhar de Justin. Nenhuma novidade, pois estavam frente a frente e se conheciam desde sempre. S que ele a olhava como mulher e no como a filha adotiva do vizinho. Ele a olhava com interesse sexual.
A lanchonete era familiar. Confortvel. Sofriam alguma provocao, mas o que se podia esperar numa cidade pequena, onde todos a conheciam e... bolas, se interessavam? Ora, no tinha nada a esconder e poderia conversar com todo mundo se tivesse vontade. Normalmente, estar naquela lanchonete era como estar em casa.
Exceto naquela noite.
Sentia-se em pnico, como se o mundo se voltasse contra ela. No que se importasse, com Justin olhando-a daquele jeito, ntimo e enervante. Mas sempre sabia o que dizer a Justin, como se comportar, o que fazer perto dele... de repente, todo o nvel de conforto se perdera.
Finalmente, ele disse alguma coisa.
 Voc parece cansada, Win.
 Obrigada, doutor. Era exatamente o que eu queria ouvir.
 No apenas cansada. Voc parece exausta. Imediatamente, ela ficou alerta. O que aconteceu com aquela fala mansa que ele usara quando Sheila estava por perto?
 Est querendo um soco, ?  advertiu.  No estou nem um pouco cansada.
Justin franziu o cenho.
 O que foi?
Ela se desanimou. Aquele era Justin, que a conhecia havia muito... que j sabia tudo sobre Angel.
	Tudo.
	Ento, vamos consertar esse "tudo". Mas vai ser difcil, se no for um pouco mais especfica.
A garonete voltou.
	Aqui est.  Sheila serviu os pedidos, mas Justin nem a olhou. Continuou encorajando Winona a falar.
	No h nenhuma famlia adotiva na regio  informou ela.  O juiz providencia um lugar quando  preciso. Na situao atual, s os Barker, que j esto com duas crianas e quase sem espao. Eles podero cuidar do beb por algumas semanas, se no houver outra opo. So boas pessoas, mas no querem a Angel, Justin.
	Certo.
	E h uma outra famlia na lista...  Ela apenas remexia a comida com o garfo.  No papel, so qualificados. Mas nunca colocamos nenhuma criana com eles...
 Angel no vai para l  afirmou Justin.
Winona relaxou um pouco.
	No quero dizer que sou a pessoa mais indicada para cuidar de um beb. Ou que seja qualificada. De qualquer forma. Mas...
	Oh, cale-se, Win, no precisa se justificar para mim.  Ele deu uma olhada no beb e deu uma dentada no hambrguer.  Ento, conte mais. O que est acontecendo com a procura dos pais? Parece que ainda no encontrou a me do beb.
	Continuo tentando.
	Mas...
Ela contou o que j apurara.
	Soube de duas garotas de famlia rica que andaram se comportando muito mal. Voc sabe, os pais mandaram-nas para fazendas-retiro. Elas continuam estudando, mas com a ajuda de profissionais e longe das ms companhias.
	Na verdade, no estou familiarizado com esses lugares, mas parece que voc conhece o trabalho.
	Sim, e alguns so excelentes. Gente jovem realmente segue o mau caminho, s vezes. Principalmente quando no consegue se livrar das ms influncias. S que so lugares carssimos, nem todos podem usufruir dessa estrutura. De qualquer maneira, nenhuma dessas duas garotas estava grvida, segundo os pais.
	E isso significa...
	No significa nada. Os pais podem estar mentindo, achando que assim protegem as filhas. Assim, no terei certeza enquanto no checar as informaes e isso pode levar um tempo. Enquanto isso, tambm estou investigando uma garota de catorze anos que mora num trailer. O pai trabalha na refinaria e ela supostamente perdeu o beb. Por enquanto, ainda no posso for-la a fazer um exame.  Win encarou Justin.  Tenho quase certeza de que essas garotas no tm nada a ver com Angel...
	Entendi. Trocando em midos, voc est dizendo que quer ficar com Angel por enquanto. Mas... como tem certeza de que nenhuma dessas garotas  a me de Angel?
	Bem, no tenho certeza absoluta... mas a me de Angel parecia me conhecer pessoalmente, por causa do bilhete. Eu no conheo nenhuma dessas garotas...  Sheila passou pela mesa novamente, trouxe a mamadeira e dois pedaos de torta bem grandes, mas no parou para conversar.  Passei horas na escola hoje vasculhando os dados armazenados no sistema do computador. Separei alguns registros para analisar melhor. Depois, fui a mdicos, clnicas, obstetras, ao servio de planejamento familiar. Esse pessoal no conta nada, eles mantm a confidencialidade das mes adolescentes acima de tudo. Depois, conversei com padres, pastores e rabinos...
Justin olhou para o prato dela e roubou uma costeleta que ela no ia consumir.
	Consegui levantar mais alguns nomes para verificar.
	Mas...
	Mas pode ser uma mulher adulta. A me no necessariamente tem que ser adolescente.  Winona aceitou a poro de carne que Justin lhe oferecia espetada no garfo.  Estive tambm num abrigo para mulheres. Mas o pessoal l tambm no coopera. Eu entendo sobre confidencialidade, mas j faz dias e no tenho nenhuma pista...
	Win.  Justin desistiu de faz-la comer.  Tem certeza de que quer encontrar uma pista?
Ela se espantou com a pergunta.
	Est dizendo que estou fazendo corpo mole porque quero o beb?  Meneou a cabea, pasma.  Admito que me apaixonei por ela. Sei que s faz trs dias e juro que j sinto como se ela fosse minha, mas s h uma forma de conseguir isso, Justin. Encontrando a me. Voc sabe como , a verdade acaba aparecendo mais adiante.
	 um ditado texano esse?
Ela riu.
	No, mas devia ser, no acha?
	O que eu acho, srta. Raye,  que est sobrecarregada... por isso, devia aceitar a minha ajuda. De que adianta ter um amigo rico se no pode se aproveitar dele de vez em quando? Voc conhece a minha casa. Conhece Myrt, a governanta. Enquanto voc trabalha em tempo integral...
	No  decretou Winona.
	No? Esse "no" refere-se a qu? Eu no fiz nenhuma pergunta.
Sheila no estava por perto. Winona levantou-se e recolheu os pratos para limpar um pouco o balco. O beb ainda dormia, mas j comeava a mexer-se. Com um pouco mais de espao, poderia balanar o carrinho gentilmente.
 No sei como, mas voc me fez falar de Angel e dos meus problemas, Justin. S que no foi por isso que marquei este encontro.
Justin ficou tenso.
 Eu sei. Acho que quer falar comigo sobre o casamento.
Ela assentiu.
 Voc no vai me conduzir ao casamento, Justin  avisou, delicada.
 Acha que est me dizendo algo que eu no saiba? Por que eu a conduziria a alguma coisa?
Winona no se deixaria enganar pelo tom tranquilo e bajulador.
 Foi isso o que me deixou confusa nesses ltimos dias. Voc j me pediu em casamento  uma centena de vezes, mas essa era uma das nossas piadas favoritas. S que desta vez... voc parecia estar falando srio. Ento, comecei a pensar. Talvez voc esteja aborrecido com algo.  Ela o encarou.  Eu sei que aconteceu algo na Bsnia. Ele relaxou.
	O que  isso? Um camarada no pode pedir uma mulher em casamento sem que ela desconfie de sua sanidade ou algum outro problema obscuro?
	No me confunda, Justin. Voc sabe muito bem que no foi isso o que eu disse. Responda  pergunta. Por que no quer falar sobre a Bsnia?
Winona percebeu desalento nos olhos dele, logo substitudo por descontrao. Sempre foram francos um com o outro.
 No sei como a Bsnia veio parar nesta conversa. Sim, muita coisa aconteceu l. Eu vivi o pior dos mundos.
Ela entendia.
	Eu sei, voc sempre disse isso... quero dizer... aconteceu mais alguma coisa sobre a qual voc no quer falar? Sei que foi um horror por l, mas voc voltou e mudou de traumatologia para cirurgia plstica...
	E?
	Ento... quando eu percebi, procurei na memria e achei que isso aconteceu quando algo em voc tambm mudou. Voc ganhou essa reputao de playboy.
	 uma reputao que tento evitar. Tenho dinheiro, sou solteiro, por isso a imprensa naturalmente...
	No me enrole, querido.  Winona inclinou-se para a frente.  No estou falando da imprensa, Justin. Estou falando da reputao que voc deixou que se criasse.
 Mas eu sou solteiro... tenho recursos para...
Ela o fez se calar.
	At parece que voc passa todo o seu tempo s nas cirurgias estticas. Nada contra isso, veja bem... mas por que no se comenta que graas a voc temos essa moderna unidade de queimaduras?
	Quem lhe disse isso?  Justin tocou na orelha, um sinal claro de que se sentia pressionado.  E, para seu conhecimento, eu ganho a vida retocando narizes e eliminando barrigas. Se acha que vou lamentar por isso...
	Ningum est dizendo que voc precisa se desculpar por isso. Eu sei que aps cnceres e tumores, as suas cirurgias aumentam a auto-estima das mulheres...  Winona percebeu que ele a desviava do assunto principal.  De qualquer forma, s acho que devia passar uma imagem correta  comunidade, informar que, alm de embelezar clientes ricas, voc usa os seus conhecimentos em casos de queimaduras.
	Mas quem lhe disse isso? Algum anda espalhando mentiras sobre mim.
	Cale-se, Justin. S estou tentando dizer que algo est errado. Sei que algo o incomoda e que voc no quer falar no assunto. E no sei se essa idia de se casar comigo tem a ver com esse problema, mas...
De repente, como se ela no estivesse falando sobre um assunto srio, ele se levantou e pegou a jaqueta.
 Justin...  Winona teve que desistir, pois Angel acordou e balbuciou. Estava sonolenta ainda, mas logo precisaria mamar, tomar banho e dormir. Pensando bem, aps o dia longo... ela tambm s queria os dois ltimos.
Justin j vestira a jaqueta.
 Quer saber? Mesmo quando voc tinha doze anos eu percebi algo em voc. Nunca se deixa embromar, sempre v alm da capa. Eu nunca menti para voc, Win, nem quando quis.
 Bem... acho timo  respondeu ela, meio hesitante. Era um elogio, no? Mas ele insistia em desvi-la do assunto principal.
Antes que ela pudesse retomar a discusso, ele se inclinou. Metade da cidade, exagerando um pouco, estava na lanchonete, o barulho aumentara bastante, crianas corriam para l e para c, Sheila berrava os pedidos para o pessoal da cozinha. No meio de toda essa confuso, ele a beijou na boca rapidamente.
Winona abalou-se, tanto que fechou os olhos, alheia a tudo em volta. Finalmente, reuniu um pouco de razo, de vergonha e sanidade.
No podia ceder. Sempre que se apegava s pessoas, elas a abandonavam e, mesmo sem querer, magoava-se. No era de matar. Apenas sentia uma dor enorme no corao. S que nada valia esse risco. Disso tinha certeza.
Mas seus lbios colaram-se nos de Justin e assim ficaram. Mantinham-se conectados por aquela pequena superfcie, porm, sentia o corpo se inflamar.
Ao redor, a vida continuava. Crianas corriam pelo salo. Um prato caiu no cho. A vitrola tocava uma cano sobre a vida dura no campo. Luzes non piscavam na entrada. Um beb comeou a chorar. Winona via. Ouvia. Mas no ligava para nada.
Finalmente, Justin ergueu a cabea, os olhos obscurecidos.
	E uma boa idia beijar em pblico, no acha? Ela se esforou para sair do transe.
	Como?
 Todo mundo na cidade sabe que nos conhecemos, Win. Mas assim... vo pensar que estamos saindo... que estvamos pensando em nos casar mesmo antes de Angel aparecer. Vamos parecer um casal e ningum vai estranhar quando juntarmos as escovas de dente.
	Juntarmos as escovas de dente?
	Sim, tem razo. H um motivo muito srio para eu a pedir em casamento.  porque acho que podamos dar certo. E pensei nisso muito antes de esta belezinha aparecer.
Ele tocou no rostinho de Angel, o que bastou para acalm-la. Ento, voltou-se e saiu.
De repente, a lanchonete ficou em silncio, restando somente a vitrola. Algumas pessoas evitavam olhar, educadas, outras indicavam e cochichavam.
Rapidamente, Winona arrumou o beb no carrinho e a acalmou. Atrapalhada, tentou pegar a chave do carro e a jaqueta ao mesmo tempo. Justin tinha beijos envenenados, que outra explicao podia haver? E o pior era que ainda sentia os efeitos.
Bendito Justin... um magnata e se esquecia de pagar a conta. Tirou dinheiro da carteira, pagou a despesa, vestiu a jaqueta, pegou Angel e toda a parafernlia, tudo sob o olhar curioso e divertido dos demais clientes da lanchonete.
Finalmente, na rua, encheu os pulmes com o ar fresco. Sem querer, sorriu.
No havia nada de engraado na situao, mas, de algum modo, continuava pendente uma proposta de casamento entre ela e Justin. O mais surpreendente era que ele queria mesmo se casar com ela... Uma coisa era certa: ele sabia beijar...

CAPTULO VI

Justin foi ao Clube dos Pecuaristas do Texas, estacionou seu carro esportivo, desligou o motor, porm permaneceu parado. A reunio com os membros estava marcada para as oito horas. J estava um pouco atrasado. Viu as luzes no prdio, reconheceu alguns veculos no estacionamento. Precisava concentrar-se no acidente de avio e no diamante desaparecido; enfim, em assuntos srios. Contudo, s pensava em Winona.
Estava to apaixonado por ela.
Tecnicamente, am-la no era novidade. Sabia disso havia muito.
Mas, somente aps o primeiro beijo, passara a acreditar que ela poderia sentir o mesmo por ele. O beb foi a primeira necessidade que viu em Winona, a primeira falha na armadura, a primeira emoo que ela demonstrou... s que o beijo nada tinha a ver com Angel. Tinha a ver com eles. Tinha a ver com algo forte e poderoso que se firmava entre os dois.
Tamborilando com os dedos no volante, concluiu que, quando se provava um pedacinho do paraso, era difcil no querer todo o resto. Incluindo os problemas e alegrias. Winona poderia querer adotar cada criana abandonada no condado, mas era teimosa, determinada e independente demais para contar com ele, mesmo sabendo que era favorvel. Mas no se importava. Ela estava confusa com as emoes que os cercavam; porm, como dizia Shakespeare, valia tudo no amor e na guerra. Win sapateara em seu corao a vida toda; no faria mal inverter os papis um pouco.
No quando o motivo era justo.
Assobiando, saiu do carro e caminhou para a entrada. Ao chegar, ficou srio, pois no era hora de cantar na chuva.
Um jogo de pquer acontecia num canto distante, alguns homens vestiam o casaco ao sair de salas enfumaadas. Por hbito, deu uma olhada no lema "Liderana, Justia, Paz" na parede oposta. A placa no era imponente, nem grande. A maioria dos estranhos raramente notava o smbolo. Mas, para Justin, era como fazer contato visual com um velho amigo. Dirigiu-se  ala leste, esperando encontrar os demais na rea de reunies,  direita... e no se decepcionou.
A sala estava carregada de tesfosterona. O fogo ardia na lareira. Uma cabea de javali enfeitava a parede sobre o aparador. Sobre a mesa slida, as luzes brilhantes de um lustre caro. Os mveis eram todos de couro, sofs e cadeiras, divs para descanso... mas ningum estava sentado. Justin ficou tenso, a exemplo dos demais. Matt andava feito um puma enjaulado, Dakota fitava a noite pela janela, pensativo e quieto. Aaron ainda no voltara de Washington, mas Ben estava ali. De famlia rabe, ele usava um kaffyeh, o tpico leno sobre a cabea, feito um guerreiro do deserto.
 Desculpem o atraso.  Justin entrou, sentindo-se culpado.  Mas vocs esto com uma cara pssima. Ms notcias? Dakota, voc ficou de procurar o diamante vermelho...
 Sim, cheguei mais cedo, conforme combinamos, para ver se o diamante vermelho estava aqui  afirmou Dakota.  S que, quando cheguei aqui, a porta da adega estava aberta.
Justin praguejou. Dakota continuou:
 Podia ter avisado a todos, mas achei melhor esperar at informar Hank Langley, j que ele  o proprietrio do clube. Ele disse que informaria aos outros membros, mas ns cinco, incluindo Aaron, deveramos tomar a frente e investigar. Portanto, precisamos descobrir o que est acontecendo. Tenho um plano. A tarde, havia muito mais gente aqui e achei melhor esperar anoitecer. O jogo de pquer na outra sala logo vai acabar e seremos s ns aqui. Mas quero saber de Aaron, porque precisamos da opinio dele.
Matthew remexeu os ombros para aliviar a tenso e ajudou a inteirar Justin da situao:
	A princpio, encontrar a adega aberta no devia espantar, pois j sabemos que algum roubou duas pedras. Obviamente, o ladro conseguiu entrar aqui, de algum jeito.
	Sim  concordou Ben.  S que o vigia teria visto a porta e avisado.
	Riley Monroe no reportou nada?  indagou Justin.
	No por escrito  disse Dakota, frustrado.
	Bem, isso  estranho.  Justin sabia que o zelador era cem por cento confivel e leal.  E ainda no localizaram Aaron?
	No.  A expresso de Matthew era de pura frustrao.  Sabemos que ele ainda est em Washington...
	Precisamos deixar um recado no hotel para que ele entre em contato urgente  opinou Dakota.
	Bem, sabemos que ele telefonar assim que puder. Com tantas pessoas de Asterland e Obersburg envolvidas no acidente... e possivelmente com o roubo das pedras... Aaron  o nico com experincia diplomtica  comentou Justin.
O jogo de pquer prosseguia na outra sala. Numa noite fria como aquela, em dia de semana, era curioso que ainda no tivessem encerrado. Justin analisou os companheiros.
 Vocs todos parecem achar que h algo errado. Quero dizer... alm do que j sabemos.
Matthew assentiu.
	E h. Dakota concordou:
	Algo terrivelmente errado.
	Acho que devemos aguardar at ficarmos sozinhos no prdio  declarou Ben.  Mas  como aguardar um furaco. Sinto que devia ter uma espada, ou arma aqui comigo, como se algo ameaador estivesse  espreita.
	Shh. Vocs esto me deixando nervoso  declarou Justin, resumindo o que j sabiam:  Temos um ladro. Como ou por que aconteceu, no sabemos. Mas quem roubou as pedras estava no vo para Asterland, com certeza. E, j que recuperamos duas pedras, estamos na dianteira do ladro, mas ele... ou ela... j pode estar fora do pas. Na verdade, pelo que sei, a maioria dos passageiros j no est mais em Royal.
	Robert Klimt?  indagou Ben.
	Est em coma.
	Lady Helena?  quis saber Matthew.
 Ainda est no hospital, com uma perna quebrada e queimaduras.
Matthew franziu o cenho.
	Havia mais algum. A professora. Pamela alguma coisa...
	Sim, Pamela Miles, a professora que estava danando com Aaron na festa.  Justin lanou as mos ao alto.  Vocs a viram, no? Mesmo que no a conhecessem, quero dizer, ela s pode ser ladra em histria em quadrinho... Ela no  o "nosso homem". E outra residente local que estava no vo era Jamie Morris, mas ela seguia para Asterland para se casar,  pouco provvel que seja a ladra.
	Sim, sim.  Dakota sorriu. Sabia o que Justin estava fazendo. O mdico sempre adotava o papel do ponderado em situaes de crise, aliviando a tenso para que todos pudessem trabalhar melhor juntos.  No ouvi mais barulho depois que a porta se fechou h pouco. Acho que os ltimos scios saram. Vamos l ver.
Ben tomou a frente. Na verdade, no havia nada de misterioso naquela galeria. Justin, assim como os demais, achava que segredos eram perigosos. A melhor atitude quando se queria guardar algo importante era torn-la pblica, como fizeram com as trs jias da lenda.
Justin tinha as duas pedras encontradas no avio no bolso do palet.
No fim do corredor, alm do vestirio e toaletes, havia uma cozinha enorme. Nos fundos, uma ante-sala e uma despensa espaosa. Por uma porta na despensa, chegava-se  adega, no subsolo. No fundo da adega, havia uma porta que deveria estar trancada; porm, como Dakota j informara, estava aberta. Com um leve empurro na maaneta, passaram a um corredor de pedra, estreito, iluminado com lmpadas a intervalos regulares. No estava muito frio, mas era de arrepiar.
Na poca da guerra do Mxico... quando o soldado texano com as pedras morreu... havia uma igreja nesse local. Tratava-se da misso original; por isso, Tex Langley comprara as terras ao lado e construra o clube... para proteger a herana local. As leis no favoreciam a preservao da memria naqueles tempos.
Nem atualmente, pensou Justin. Por isso mesmo, o grupo insistia em permanecer unido. As leis no conseguiam acertar todas as injustias... nem proteger a todos. No paravam de aparecer bebs abandonados, como Angel. Contratempos nas vidas das pessoas. Mazelas que a lei no consertava e nunca se consertariam se algumas pessoas no se comprometessem pelo menos a tentar.
 Oh, no...  murmurou Dakota, em choque.
Justin adiantou-se, bloqueando a viso dos outros homens, pois sentia que era um problema para ele resolver. Imbudo de profissionalismo, fitou o corpo no cho e reconheceu Riley Monroe. Agachou-se, tomou o pulso e confirmou aquilo de que j desconfiava.
Riley no tinha pulso havia muito. Provavelmente, alguns dias. O zelador do clube estava morto.
Agitados, os companheiros recordaram o motivo de estar ali.
 Verifiquem a caixa com o diamante  disse Ben.
	Nada, o diamante vermelho sumiu  respondeu Matthew.
	Justin?  indagou Dakota.
Justin entendeu que Dakota... bem como os demais... contavam com ele para obter respostas. Ningum mencionou a palavra assassinato, mas todos sabiam que era o que acontecera ali.
	Bem... h uma marca na cabea de Riley, mas no creio que tenha sido a causa da morte. Parece que ele foi imobilizado. No foi um tiro, nem ferimento a faca. No h sangue. Minha aposta  em injeo de alguma substncia... o que implica em premeditao do crime. E est to frio aqui embaixo que no posso calcular quando ocorreu, mas creio que h uns dois dias...
	Duas noites, quer dizer. Na noite em que o avio decolou?  indagou Ben.
Justin usou o palet para cobrir o rosto de Riley e fitou os amigos.
 Eu diria que sim.
Todos trocaram olhares, at que Matthew suspirou e manifestou-se:
	Que confuso. Um morto, um diamante roubado, um acidente de avio. Conte  polcia e teremos um incidente internacional... a pior coisa que poderia acontecer, quando Asterland acaba de assinar um tratado de paz com Obersbourg. E nem sabemos se o ladro  americano ou estrangeiro.
	Tambm no temos por que relacionar o acidente de avio ao roubo das jias  observou Dakota.  Pode ter sido apenas coincidncia.
Justin levantou-se.
	 verdade  concordou.  Se no fosse o acidente, no saberamos do roubo por algum tempo. O que me leva a crer que os dois eventos no esto relacionados. Mas, agora, temo que nada disso importe. Riley est morto e no h opo seno chamar as autoridades.
	Eu sei.  Matt avanou um passo.  Mas a questo , qual autoridade? Riley foi assassinado. Claro, temos que chamar a polcia. Mas isso significa que teremos que contar tudo sobre o Clube dos Pecuaristas do Texas, sobre as trs pedras e a nossa histria de misses ao redor do mundo? A questo : vamos comunicar o assassinato de Riley... mas temos que revelar todas as circunstncias do crime? Gostaria de ter algum que nos aconselhasse. Estamos com um problema srio.
 No se trata de omitir informaes  declarou Ben.  No  essa a questo. Mas, se as embaixadas forem envolvidas, teremos um pesadelo. E, a menos que resguardemos informaes sobre as atividades passadas do clube, vamos ameaar nossos objetivos. Acho que precisamos de um policial que saiba de toda a histria, mas tem que ser algum de confiana. Qual quer deciso precipitada pode piorar tudo.
Justin pensou imediatamente em Winona.
 Bem... vamos comunicar  polcia. Mas, quanto ao policial de confiana, tenho uma sugesto...
Uma campainha eletrnica estridente comeou a soar. Era o pager de Justin, pelo qual recebia tele-mensagens do hospital. Ele praguejou. No podia estar em trs lugares ao mesmo tempo, mas aquela era uma noite em que tinha que estar.
Winona tinha o telefone colado ao ouvido quando Wayne colocou o rosto pela fresta da porta. Hesitante, ele nem entrava, nem saa, enquanto ela entabulava conversa. Esfregando, avaliou o local de trabalho.
Antigamente, Royal no tinha um departamento da infncia e juventude... o que significava que no havia sala para Winona quando ela fora contratada. Ela mesma transformara um almoxarifado em escritrio. Na melhor das hipteses, havia espao ali para um homem pequeno. Agora, descontando as pilhas de pastas de arquivo e a escrivaninha que no via a luz do sol havia muito tempo, via-se uma parafernlia relativa ao beb... e Angel, num pequeno espao entre cobertor, brinquedos e mamadeira. Ela balbuciou ao v-lo. Wayne suspirou de seu lugar junto  porta.
	At que enfim consigo falar com voc  disse a Winona, assim que ela desligou o telefone.  J sabe que Riley Monroe foi assassinado?
	J.
	No gosto de confuso na minha cidade e nesta semana j tivemos muita movimentao.  Wayne esfregou o queixo novamente.  Quanto tempo ainda vai manter o beb no escritrio, Raye?
	O beb no me impede de trabalhar em tempo integral  defendeu-se ela.
	No respondeu  minha pergunta. Tenho duas filhas pequenas em casa e sei como elas demandam ateno. Quanto tempo acha que vai aguentar com esse esquema, Winona?
	Voc sabe... estou procurando a me.
	De novo, no foi isso que eu perguntei. J est to apegada a essa criana que transparece no seu rosto. E est driblando a lei... sabe que est... no entregando-a ao servio social.
 Eles no pressionaram. 
Ocasionalmente, Wayne era muito lgico.
 Porque estamos em Royal. E porque todos a conhecem e admiram. Mas isso no justifica desrespeitar as normas e voc sabe como sou rigoroso nesse aspecto. Se um policial no cumpre a lei, como pode exigir que os outros a cumpram?
	Eu no estou transgredindo nenhuma lei.
	Eu sei. Eu no disse que estava. Pare de evitar o assunto.
Winona baixou a cabea.
	Desculpe-me.  E lamentava de fato. Por mais difcil que o chefe fosse s vezes, Wayne sempre estivera do seu lado, e sabia que precisavam ter aquela conversa.  Est bem. Espero encontrar os pais e a busca s comeou. Mas, se descobrir algo ruim, gostaria de adotar Angel. Se no adotar, pelo menos cuidar dela.
	Bem, essa foi uma resposta direta.  Wayne passou a mo no rosto cansado.  Se voc precisar de uma declarao sobre a sua pessoa para candidatar-se a me adotiva, pode contar comigo, Raye  declarou, meio contrariado.
Ela no ia beijar o chefe. Seria totalmente inadequado e ele detestava essas manifestaes.
	Obrigada  limitou-se a dizer.
	Hum... esse no foi o nico motivo de eu passar aqui. Voc conhecia Riley Monre?
	Sei que era o zelador do clube e trabalhava como barman nas festas. Parecia boa pessoa. No consigo imagin-lo envolvido em problemas. Mas no o conhecia a nvel pessoal.
Wayne assentiu.
	Bem, a sua impresso  igual  de todo mundo. Era a ltima pessoa com algum motivo para ser assassinada. Estamos tentando afastar a imprensa e pouca gente vai comparecer ao enterro, j que ele no tinha famlia. Se algum jornalista pressionar, no diga nada.
	Tudo bem.  Avisado de um telefonema, Wayne voltou para sua sala praguejando.
Winona tambm retomava o trabalho quando seu telefone tambm tocou.
	Winona?  indagou uma voz feminina.
	Sim.
	Estou na sua casa, querida...
	Como?
	S queria saber se voc  alrgica a algum produto ou alimento.
	Bem, no, mas...
	timo. S no queria cozinhar algo que no lhe fizesse bem. E Justin no tinha certeza de que voc me aceitaria para cuidar do beb at que sentssemos e conversssemos, mas... no  como se fssemos estranhas. Ento, quero deixar claro que estou disponvel. E adoro crianas. Estarei aqui, ajudando na casa e no tem problema se o beb ficar. Por ora,  s, querida. Sei que est trabalhando e no devia receber telefonemas pessoais. Vou desligar.
Winona ficou com o telefone no ouvido, totalmente confusa. Sim, a voz da mulher era familiar, mas no conseguia se lembrar da dona. Devia ficar preocupada com uma estranha na casa, mas ela mencionara um nome.
Justin.
O beb balbuciou, contente.
 Angel, acho melhor almoarmos em casa hoje. Est bem para voc?
O beb deu um chute no ar, como se concordasse.
Ao meio-dia e doze, Winona liquidou o hambrguer que comprara no drive-thru de uma lanchonete e reparou num carro estacionado na rua. Tratava-se de um modelo antigo, cinza, mas a lataria estava impecvel, como no dia em que sara da fbrica.
Intrigada, Winona pegou Angel e a bolsa. O beb no reclamava, mas comearia a qualquer instante. Precisamente ao meio-dia e doze, nem um minuto a mais, e Winona queria entrar em casa antes que a menina abrisse o berreiro.
J estava com a chave da cozinha na mo quando percebeu que a porta estava aberta. Espiou o interior e quase teve um ataque cardaco.
No havia loua suja na pia. Os azulejos brilhavam. Um bolo fofo esfriava no balco e uma panela fumegava no fogo. Entrou, passando pela mquina de lavar roupa e a secadora em pleno funcionamento. Mas o mais impressionante eram as roupas dobradas sobre a tbua de passar.
Parecia um filme de terror. Seguiu adentrando a casa, com Angel nos braos. Havia um invasor ali. Nenhuma me se arriscaria a entrar em casa naquela situao; porm, nesse caso, o estranho parecia mais equilibrado do que a moradora.
No havia toalhas jogadas no cho do banheiro. Nem meias, chinelos e calas jeans no canto do quarto. A cama estava feita. Com lenis limpos, como numa casa decente.
Apertando um pouco mais o beb nos braos, protetora, foi para a sala, onde sabia que encontraria o invasor, pelo som do aspirador de p. Encontrou uma mulher agachada junto ao sof, tirando o p da parte de baixo do mvel.
Como se sentisse a presena de algum, a mulher ergueu-se, voltou-se e levou a mo ao peito. Desligou o aspirador.
 No se assuste  tranquilizou Winona.  Eu posso ajud-la. Sei que deve haver algum programa para recuperao de manacos por limpeza. H programas para tudo. No mnimo, posso ser o seu grupo de apoio. Confie em mim, poderei ensin-la a viver com sujeira.  possvel. Vivo assim h muito tempo... A mulher relaxou, suspirou e riu.
	Justin sempre dizia que voc era terrvel. Lembra-se de mim, no ? Myrt.
	Claro que sim.
No era como se se conhecessem, mas Myrt era o tipo de pessoa difcil de se esquecer. A cala jeans e a camiseta adequavam-se a algum de trinta anos, mas o rosto denunciava uns sessenta anos. Os brincos de argola balanaram nas orelhas quando ela se inclinou para ver melhor Angel.
	Ento, este  o nosso beb? Eu tive quatro, sabe. E so sete netos at agora. Mas quase no vejo as crianas. Todos se mudaram para longe e tm seus empregos e tudo. Sinto falta de um beb.
	Nosso beb?
Winona considerava-se esperta, mas desconfiava de que Myrt a superasse.
 Justin contou que voc anda muito ocupada, tentando trabalhar e cuidar deste beb ao mesmo tempo. Teme que voc acabe exausta. A casa de Justin  grande, mas no tem muita coisa para se limpar, principalmente porque ele no pra l. Na minha opinio, com tantos quartos disponveis, seria mais fcil instalar voc e o beb na casa dele...
Winona sentiu os joelhos fracos.
 Co-como?
Myrt nem ouvia.
 Mas para mim tanto faz. Ele me paga bem... eu diria metade do que eu mereo... mas tambm sou a melhor av que ele poderia contratar. Cozinho bem. Nunca perco a pacincia com crianas. E gosto de limpeza...
	A senhora est me assustando  protestou Winona.
	Ora,  falta de educao olhar os dentes de cavalo dado. Voc precisa de ajuda. Eu estou aqui. E Justin est pagando o meu salrio, portanto, no se preocupe. Posso dormir aqui, quando precisar...
	Espere!
	Na verdade, gostaria at que minhas noites no fossem to ridas, mas desde que Ted se foi desta para uma melhor... bem, ainda h fogo nesta velha fornalha, mas parece que no sobrou homem por a. Eu tentei. A questo  que posso cuidar da nossa Angel, se voc no puder...
Myrt abriu os braos para pegar Angel. Winona entregou o beb e observou-as atentamente, como uma diretora de escola. Tinham diferenas de estilo, mas nada era perfeito, pensou Winona.
	Myrt?
	Hum?
	Ela fica birrenta na hora do jantar. Na verdade, no h hora certa. Acontece sempre que eu vou fazer a refeio. Ela pede mamadeira a cada quatro horas e meia, sem falha.
	Entendi. Ns vamos nos divertir muito, no , queridinha?
	Bem, no queria deix-la, mas... assim que ela mamar, vai dormir por umas duas horas. Eu preciso mesmo conversar com Justin. A senhora se importa se eu sair um pouco?
	Bem, claro que no, querida.  para isso que estou aqui. E pelo beb.
Winona pegou a jaqueta e a chave do carro, e saiu. No carro, pegou o telefone celular e ligou para Wayne para avisar que se atrasaria um pouco.
Bem, "um pouco" era metfora. Quando se encontrasse com Justin, no saberia bem o que faria com ele...

CAPTULO VII

Winona entrou no hospital com o corao acelerado. No sabia por que estava nervosa, j que as chances de encontrar Justin eram mnimas. Ele podia estar no meio de uma cirurgia que duraria horas e tambm no poderia interromp-lo caso estivesse em consulta.
No precisava v-lo naquele instante, pensando bem. Claro, ele no devia ter transferido Myrt para sua casa sem lhe falar antes, mas no se tratava de ofensa irreparvel. Sentia-se disposta a brigar por qualquer motivo e, de fato, estava aborrecida por no ter resolvido ainda a questo da proposta de casamento. Havia algo errado com Justin. Ele agia de maneira muito estranha. Queria... precisava chegar ao fundo da questo, mas agarr-lo no meio do dia de trabalho para uma conversa no resolveria nada.
Devia estar em casa. Ou no trabalho. Em qualquer lugar, menos percorrendo o corredor rumo  unidade de cirurgia plstica e queimaduras. Pessoas conhecidas a saudavam e ela apenas assentia em resposta. Todos na cidade sabiam que ela era policial de modo que podia andar pelo hospital sem que ningum a questionasse. Felizmente, porque no saberia responder por que estava ali. S queria ver Justin.
E, por algum motivo, queria v-lo naquele instante. No mais tarde. Queria brigar com ele, acus-lo de ser manipulador e autoritrio.
No entanto, mesmo encontrando uma boa desculpa, ainda sentia o corao disparado.
Parou junto ao balco de atendimento.
 J se encontrou com o dr. Webb?  perguntou Mary Jo, enfermeira, reconhecendo-a.  Ele passou por aqui vrias vezes esta noite... voc sabe, houve um acidente com adolescentes na estrada de Cold Creek. Stevie cortou mesmo o rosto.
	Oh, no  lamentou Winona.  Stevie Richards?  Como se houvesse outro Stevie morando perto da estrada de Cold Creek.
	Sim, os pais chamaram o dr. Webb de madrugada, em carter de emergncia. A famlia toda estava aflita. O dr. Webb conseguiu tranquilizar e os mandou para casa, ficando para assistir Stevie aps a cirurgia...  Normalmente, Mary Jo no comentava os casos, mas Winona no era qualquer pessoa. J se conheciam havia anos, e a enfermeira sabia mais sobre acidentes e problemas com jovens do que os registros do hospital apontavam; por isso, era frequente trocarem idias.  Sei que ele no estava no quarto de Stevie h uma hora, mas posso...
Winona a viu pegar o microfone.
	No, no o chame. No quero incomod-lo se estiver com um paciente. No era assim to importante.  Se Justin ficara acordado a noite inteira, devia estar exausto. Sim, havia sua necessidade emocional, mas podia esperar. A policial Winona era campe em controlar as emoes.
	Bem, ele ainda est no hospital, isso eu sei.  Mary Jo bateu o dedo no balco.  Tenho quase certeza que o vi indo para o quarto de lady Helena. Pelo menos, ele mencionou que formaria uma junta de avaliao com a dra. Harding e o dr. Chambers. Isso foi h meia hora, assim, acho que chegou em boa hora para peg-lo.
 Obrigada. Devo uma a voc.
Winona ouviu um helicptero aproximando-se. O hospital de Royal no era como o dos grandes centros, mas a unidade de queimaduras ganhava reputao e chegavam pacientes de todo lugar. No obstante, ao entrar na rea de queimaduras, logo sentiu a mudana de ambiente. Ali era calmo, com aquelas paredes azuis e iluminao suave. Ningum nem tossia na unidade. Justin colocaria para fora qualquer um que entrasse com gripe ali, pois infeco representava um srio risco a vtimas de queimaduras. Qualquer um internado naquela ala tinha srios problemas e precisava de paz, alm de cuidados mdicos. Winona tinha a impresso de que o local fora projetado para aliviar o esprito, alm de curar o corpo.
Desconfiava de que Justin precisava daquele ambiente de cura tambm... que ele no criara a unidade de queimaduras apenas com base em normas tcnicas de instalaes hospitalares, mas levando em conta as necessidades de sua alma. Como se tratasse de algum ferimento que escondia de todos.
Ainda pensava nisso quando o localizou.
O quarto de lady Helena devia ser segredo por motivo de segurana... ela era uma das pessoas mais importantes que o hospital j abrigara... mas todo policial na cidade sabia onde ela estava. Winona virou  direita e viu a dra. Harding e o dr. Chambers no corredor junto  porta. A voz de Justin vinha de dentro do quarto.
O dr. Chambers era ortopedista. Era muito falante e Winona j levara muitas crianas espancadas para ele tratar. Sabia que era uma boa pessoa.
Impossvel no gostar da dra. Harding. A especialidade dela era queimaduras e a compaixo no olhar tornava-a bonita. Justin nunca admitiu, mas Winona sabia, atravs da rede de fofocas, que ele roubara a dra. Harding de Boston devido a seu trabalho inovador no tratamento das vtimas de queimaduras.
Winona hesitou, decidindo se valia a pena interromper a junta mdica. Devido  comoo que o acidente causara na cidade e aos boletins dirios nos noticirios, mais ou menos sabia do estado de lady Helena. Justin no estava diretamente envolvido, mas apenas acompanhando o caso, pois cirurgia plstica s seria cogitada dali a um bom tempo, quando os ferimentos j estivessem bem cicatrizados. Winona lembrava-se de como lady Helena era bonita e de como estava elegante na festa. A voz dela naquele instante, entretanto, parecia fraca e assustada:
	Quando poderei ir para casa?
	Creio que ficar conosco por algum tempo. Semanas ainda. Mas prometo que ter grandes progressos  respondeu a dra. Harding.
	Poderei mexer a minha mo novamente? E a perna?
Os mdicos trocaram olhares no corredor.
	Acreditamos que sim, Helena.  Ento, afastaram-se, deixando Justin sozinho com lady Helena.
	Dr. Webb, com que aparncia eu vou ficar? Por favor, diga a verdade. Ningum quer me responder direito. No posso lidar com o problema se no souber sua extenso. Como ficaro as cicatrizes?
Nesse momento, Winona quase deu meia-volta e fugiu. Mudara completamente de idia sobre conversar com Justin. Seu assunto podia esperar. Era egosmo querer v-lo, sabendo que tivera uma noite difcil e o dia tambm no fora dos melhores... As perguntas de lady Helena comoviam qualquer pessoa... e Winona no imaginava atorment-lo naquele momento.
No obstante, permaneceu. No ouvia bem o que ele dizia  paciente, mas se acalmava com seu tom gentil, familiar. Finalmente, ele saiu, guardando a caneta no bolso, o sorriso que dedicara  paciente ainda estampado no rosto... e que desapareceu assim que ele se viu no corredor.
Ele pensava estar sozinho no corredor. Winona viu quando ele relaxou os ombros. Estava plido de cansao.
No havia como passar despercebida.
 Justin?
Antes de voltar-se, ele recomps a expresso e endireitou o corpo. Imprimiu um sorriso nos lbios e seus olhos brilharam, embora ainda escondesse os sentimentos.
Win. Voc por aqui de novo?
Ela sempre se irritava com as provocaes dele. Tinha vontade de esmurr-lo... e de beij-lo. No fundo, queria toc-lo. Como no percebera isso antes?
	Devia saber que eu viria atrs de voc aps o que fez  censurou ela.
	O qu? Eu no fiz nada.
	No banque o inocente comigo, doutor. Est encrencado... e todo mundo sabe que no deve se meter com uma policial. E hora de encarar a verdade. O que vai fazer agora  tarde?
	Bem, j visitei meus pacientes hoje, mas devia receber uma corretora de seguros agora  tarde. E tenho uns relatrios para redigir.  Ele sorriu.  Mas posso cancelar tudo. Prefiro me encrencar com voc. Mas, tenho que admitir, Win, no posso prometer ser uma grande companhia. Estou um pouco cansado. Um pouco? Aquele sorriso no a enganaria jamais. Quanto mais o avaliava, mais percebia que ele teria sorte se conseguisse chegar em casa sem dormir ao volante.
 Bem, eu prometo ocupar s alguns minutos do seu tempo...
Ele franziu o cenho, como se se lembrasse de algo muito srio.
 Na verdade, eu preciso conversar com voc. Devia ter lhe telefonado bem antes, mas fiquei ocupado aqui e no consegui nem um tempinho. Ainda bem que nos encontramos...
Winona temia que ele quisesse falar sobre casamento.
 Est bem. Que tal se formos para a sua casa e, enquanto voc come um sanduche, conversamos?
Depois, eu volto para a minha casa.
Ele ergueu o sobrolho.
 Est bem para mim, mas no parece to conveniente para voc. Desde quando voc gosta de ir para a minha casa?
Desde nunca. Ela sabia onde Justin morava, mas nunca se sentira  vontade sozinha com ele. No que no confiasse em Justin... mas temia os sentimentos que ele lhe despertava. Naquele momento, porm, nada daquilo importava. Queria que ele se alimentasse, descansasse e dormisse, e seria bem mais fcil se fossem para a casa dele.
Winona seguiu o carro esportivo e, no trajeto, ligou do telefone celular para Myrt.
	At que horas a senhora pode ficar?
	J disse. A noite toda, se precisar. At voc chegar.
	Bem... como est Angel?
	Ela  um anjinho mesmo. Winona ficou mais tranquila.
	Bem, encontrei Justin e ele est realmente cansado. Estou seguindo-o at a casa dele, para faz-lo descansar. Acho que no vou ficar muito tempo, mas no sei a que horas vou chegar.
	Tudo bem. Sei onde voc estar e telefono se precisar. Fique tranquila, mame. Divirta-se. Se ficar muito tarde, eu durmo no quarto de hspedes e deixo a porta aberta para ouvir o beb. Voc tem chave?
Winona piscou. Nem sua me adotiva alguma vez lhe perguntara se tinha a chave de casa. Myrt comportava-se como me honorria, querendo ou no.
O bom humor desapareceu quando estacionou o carro na garagem da casa de Justin. No era longe da sua, mas pareciam estar em universos diferentes. A construo em estilo espanhol com telhado de cermica vermelha, dois andares e pilares adornando a porta de entrada tinha um ptio coberto que avanava at os jardins com uma fonte de mrmore e piscina com jatos de gua.
Ele abriu a porta e deu-lhe passagem. O silncio absoluto dentro da casa a deixava nervosa. Despiu a jaqueta e descalou os sapatos, tentando acalmar-se para conversar normalmente.
	J faz tempo que estive aqui. Na verdade, acho que nunca fui l em cima... Quantos quartos tem?
	Quatro, e trs banheiros, acho... mas no vou jurar  disse ele.  Eu tambm no vou muito l em cima.
Winona sorriu.
 Nunca perguntei por que comprou uma casa to grande.  A rea do trreo era enorme. Alm da sala de jantar e de estar, havia uma biblioteca, um escritrio, um jardim de inverno e uma sala de jogos. Ainda no trreo, existia uma sute principal em algum lugar.
	Na poca, pareceu certo. Eu queria uma casa na cidade, perto do hospital e do consultrio. Mas no queria no mesmo bairro de meus pais... eu os amo, mas ficaria muito perto. E, embora adore a fazenda do meu av, no poderia morar na zona rural.  longe demais do trabalho.
	Mas voc no precisava desse espao todo!
	Eu sei. Mas Myrt e o jardineiro vieram com a propriedade. E a escada confinada torna fcil manter a parte de cima isolada. Assim, tenho todo aquele espao, mas no preciso me preocupar com ele. A famlia pode ficar l nas frias e feriados.
Ela respirou fundo... no havia como obter uma resposta se no fizesse a pergunta certa.
 Pensava numa casa para uma famlia quando a comprou?
Ele levantou o rosto. Por um segundo, ela se esqueceu do quanto ele estava cansado.
 Se est me perguntando se eu consigo imaginar voc e nossos filhos vivendo aqui... sim, posso. Andei pensando nisso. Embora imaginar voc e eu produzindo essas crianas tenha me ocupado mais...
Ela era uma policial, experiente e vivida demais para enrubescer, mas o fato era que tinha as faces afogueadas. Ainda no conseguia acreditar que Justin gostava dela como mulher, nem entender como no percebera a qumica entre eles todos aqueles anos.
	Justin, eu no estava perguntando sobre ns... Ele sorriu, parando de provocar.
	Eu sei, voc s perguntou por que comprei a casa. A verdade  que... no sei, Win. Na ocasio, gostei do lugar... no foi uma deciso prtica. Gostei das lareiras, da mesa de jogos e destas duas rvores aqui.
As rvores tinham uns trs metros de altura e ficavam na sala. O projeto arquitetnico trazia a natureza para dentro e amenizava a escurido, destacando as janelas e o teto em madeira nobre.
Winona admirou as plantas e as telas de arte contempornea nas paredes.
	Voc mesmo escolheu os quadros?
	Est brincando? A casa j veio assim. Eu s preciso regar as plantas.
	Homens  murmurou ela, desanimada.
	Ora.  Ele foi para a cozinha, acendendo as luzes pelo caminho. Passaram pelo vestbulo, onde havia um aparador com um mao de correspondncia, e pelo escritrio, com lavabo grande como uma sala de estar. Winona notou os azulejos azuis e as toalhas da mesma cor.
	L em casa, o acabamento tambm  em tons de azul, mas no parece to bonito quanto o desta casa.
	Eu insisto para que se case comigo, no ? Pense, voc poderia colocar as mos em todo o meu dinheiro. No parece bom?
Colocar as mos nele parecia bom... Bom demais. Principalmente para uma mulher que no se considerava faminta por sexo... at porque tinha outras prioridades. Justin mal caminhava em linha reta. Estava cansado e sua voz saa sonolenta.
Quando passaram pela sala de jogos... antes da cozinha... ela mesma acendeu a luz porque desconfiava de que ficariam por ali. O local tinha o esprito de Justin. Entre as janelas amplas, havia estantes de livros lotadas. A mesa de jogos ficava no centro e a lareira no era a gs, mas a lenha de verdade. Completavam a decorao um tapete oriental antigo e espesso, um sof de couro vermelho e luminrias nas paredes.
Arregaando as mangas e refutando os protestos do dono da casa, Winona foi para a cozinha.
	Hoje  o seu dia de sorte. Enquanto voc toma banho e depois se instala no sof com as pernas elevadas, eu preparo alguma coisa para voc comer. Farei o que quiser... desde que no seja mais complicado do que sanduche de queijo derretido e batatas fritas. No, no me agradea. Sei que est acostumado com os pratos elaborados de Myrt, mas estou inspirada e vou acrescentar biscoitos de chocolate como sobremesa...
	Hum... posso mudar de idia sobre emprestar Myrt e cham-la de volta?
No.  Ela indicou a porta.  V tomar banho.
 Eu no sabia que voc era autoritria e abusiva  reclamou ele, rindo... mas obedeceu.
Ela procurou os ingredientes para o jantar simples. Quando ele voltou, de cala jeans e camiseta, ela levou a bandeja para a sala de jogos, acendeu a lareira e as luminrias sobre o aparador. A iluminao difusa deixou o sanduche de queijo e toicinho defumado e as batatas fritas mais apetitosos.
	Hum, est quase to bom quanto o das lanchonetes! Myrt s prepara refeies saudveis, sabe.
	Deve sofrer na mo dela.
	Ela d mais ordens que... minha me.  Ele bocejou e largou-se no sof de couro.  Oh, desculpe-me, Win. Eu devia lhe fazer um caf, acho que estou sendo um pssimo anfitrio.
	Esquea o caf  disse ela, gentil.  Coma mais um pouco, est bem? E ento relaxe. Observe o fogo. Voc no vai morrer por causa disso, vai?
 No, mas tenho que conversar com voc. Sobre algo importante. Realmente importante.
Ela imaginava que era sobre o casamento... e concordava em que precisavam conversar. Justin devorou dois sanduches, um copo de ch, recostou-se com um suspiro e... adormeceu.
Winona meneou a cabea, recolheu a bandeja e foi para a cozinha sem fazer barulho. De volta  sala de jogos, pegou uma manta e cobriu Justin. Sentou-se numa cadeira, com inteno de fazer viglia, s para ter certeza de que ele no seria importunado. Meia hora, no mximo...
Winona acordou desorientada. No sabia onde estava, nem como chegara ali. Aos poucos, foi se lembrando. Estava na sala de jogos da casa de Justin.
Ele estava no sof a sua frente, acordado, olhando para ela.
Ela experimentou novamente aquela sensao... de abandono... E sentia a garganta seca, o pulso acelerado. Pensou em algo descontrado para dizer.
 Doutor, parece que ambos camos no sono.
Ele parecia zangado.
	Voc preparou tudo, no foi?  acusou.  Por isso que se ofereceu para vir aqui. Sabia que eu dormiria assim que relaxasse.
	Sim, eu preparei tudo. Sabia que tinha passado a noite inteira acordado por causa do menino... Stevie. No ia morrer se algum cuidasse de voc, para variar.
	J telefonei para Myrt avisando que voc acabou dormindo aqui. Ela disse que o beb est bem.
	Que horas so?
	Passa das duas. Est desperta o bastante para conversar sobre um assunto srio?
	Hum... d-me cinco minutos, est bem?  Ela foi ao toalete, lavou as mos, penteou os cabelos, passou batom e voltou com duas canecas de caf instantneo.  Estou pronta agora.  Mas j se sentou preocupada. Com relao ao pedido de casamento, o que queria fazer e o que devia fazer eram condies conflitantes.
S que Justin abordou outro assunto:
	Win, preciso lhe contar sobre umas jias.
	Jias?
	Sim. Conhece a lenda da cidade?
	Claro, cresci ouvindo essa lenda.  Winona estava surpresa. De todos os seus assuntos pendentes com Justin, velhas lendas no constavam na lista.
	As pedras, uma opala preta multicolorida, uma esmeralda e um diamante vermelho, foram roubadas.
	Como?
	As pedras da lenda... elas existem e foram roubadas. Algum que estava no vo para Asterland  o ladro e, por isso, precisamos saber se o acidente ocorreu por problemas mecnicos ou sabotagem. No sabamos do roubo at procedermos  nossa prpria inspeo do avio, quando encontramos a opala e a esmeralda. Ficou faltando o diamante.
	Oh...
	Quando fomos ao clube inspecionar o local onde guardvamos as jias... encontramos a porta destrancada e Riley Monroe, morto, aparentemente assassinado pelo ladro.
	Mas... eu no entendo...
	Ns tambm no, Win.  por isso que estou lhe contando tudo. A situao est ficando cada dia mais delicada. O grupo decidiu que precisamos de algum de confiana na polcia... e logo pensamos em voc. Sei que no participa da investigao ligada ao assassinato de Riley, mas no  esse o ponto. Winona deixou de falar, s ouvia. Com ateno.
 A ltima coisa que queremos  acusar algum de Asterland ou de Obersbourg pelo roubo das jias. Esses dois pases acabaram de assinar um tratado de paz e isso poderia causar protestos, alm de um incidente internacional. Isso significa que as investigaes sobre o roubo... e o assassinato de Riley Monroe... precisam ser feitas sem alarde.
Justin continuou:
	Alm disso, h um motivo para os membros do clube manterem-se discretos h geraes. Dessa forma, podemos manter nossas pequenas expedies e misses em segredo. Se o nosso disfarce for revelado, perderemos nossa capacidade de ajudar as pessoas.
	Muito bem. Voc est me contando isso tudo por algum motivo. O que quer que eu faa?
	Win... no gosto de envolv-la, mas, at desvendarmos o que est acontecendo, precisamos de algum na polcia. Precisamos de algum que nos informe o que os investigadores esto descobrindo e que no revelam ao pblico. Algum confivel, ntegro, algum em que as pessoas confiam completamente...
	Justin?
	Sim?
Ela se levantou.

CAPTULO VII

Winona balanou a cabea, para ter certeza de que ouvira bem.
 Voc confia em mim?
Justin ia e voltava diante da lareira. Estacando, voltou-se de cenho franzido.
 Claro que confio em voc. Que pergunta  essa?
	Ele hesitou.  A minha preocupao  coloc-la em risco, Win. No  justo. Voc no  obrigada a ajudar o Clube dos Pecuaristas. O problema  nosso.
	Levou a mo  testa.  Bolas, fui eu que sugeri o seu nome e devia ter pensado em como isso a afetaria. Na hora, s pensei em algum que tivesse integridade e discernimento... Voc parecia a candidata perfeita. Todos concordaram. Confiamos em voc, ns a conhecemos h muito tempo e podemos ser honestos com...
Justin calou-se, espantado ao ver Winona lanando-se em sua direo, como se tropeasse no tapete oriental.
Durante toda a vida, ela se esforara para no reagir impulsivamente. Por ser uma criana abandonada, sentia que devia se empenhar para conquistar a considerao das outras pessoas.
Ao mesmo tempo, aprendera a valorizar a si mesma. Sabia que era uma boa policial e que realizava um excelente trabalho com crianas e jovens. Era respeitada e querida na comunidade... ou seja, ganhara o respeito das pessoas. Mas nunca imaginara ter a confiana e a considerao de Justin.
Algum que ela valorizava.
Algum que ela amava... ainda que temesse usar essa palavra importante, significativa.
Acabava de se atirar nos braos dele. Atnito, ele a amparava. Com certeza, no esperara um abrao naquele momento, quanto mais uma mulher lanando-se contra ele to impetuosamente. Tampouco estava preparado para sentir lbios trmulos e desajeitados contra os seus.
Mas ele no levou nem trs segundos... talvez menos... para perceber tudo. Antes que ela se desse conta de como agira impulsivamente, apertou-a entre os braos... contra seu prprio corpo... e os dois compartilharam um beijo selado. S se ouvia o fogo crepitando na lareira, o mesmo que projetava sombras nas paredes. A noite parecia envolv-los com um silncio particular e especial.
Justin a beijou, e repetiu mais uma vez, e outra, como se houvesse passado anos no deserto. Como se houvesse apenas sobrevivido desde a ltima vez. Como se o gosto de Winona bastasse para sustentar sua vida.
Mas aquilo no era tudo de que ela precisava. A princpio, imaginara que seu sentimento selvagem por Justin no passasse de carncia afetiva. Agora, porm, a necessidade que lhe percorria os nervos de cima a baixo parecia ganhar energia a cada segundo. Passou a tocar, acariciar, agarrar. Inclinou a cabea para trs para aproveitar melhor o beijo e, ento, contorceu-se para aplacar o desejo no corpo.
Winona estava de cala jeans e camisa de algodo, mas no ficaria assim por muito tempo. Puxou a camiseta de Justin, querendo sentir sua pele. Ele comeou a desabotoar sua camisa, beijando as reas que iam se expondo, do pescoo aos seios. Ento, quando lhe alcanou a cintura, puxou a pea ao longo dos braos. Retomou os carinhos, agora visando se livrar do suti.
Ela prendeu a respirao, os pulmes exigindo oxignio. Justin preparava-se para beij-la novamente, desta vez nos lbios. O beijo comeou doce, mas se tornava travesso e exigente.
Acalorado, ele levou a boca a seus ombros desnudos, como se fossem zonas ergenas. A camisa parara de descer nos punhos abotoados. Ele sorriu... satisfeito por t-la imobilizada. Quando abriu o fecho do suti, os seios projetaram-se contra sua mo. Baixando a cabea, massageou e provocou um mamilo com os dentes.
Winona provocara aquela exploso; desejara. Quando Justin iniciou outro beijo provocante, entretanto, ela demonstrou insegurana e ele se deteve.
	No faremos nada que voc no queira, Win.
	Mas eu quero isso. Quero voc. Agora, quem hesitava era ele.
	Preciso que voc tenha certeza. Posso parar a qualquer momento que pedir, mas vou ficar muito triste se formos adiante e voc no quiser. O que voc quiser est bom, mas no acredito que tenha vindo aqui imaginando que chegaramos a este ponto.
	Talvez eu no esperasse. Mas sei exatamente o que quero. E  voc.  Winona via que Justin no entendia o quanto a confiana dele significava para ela, o quanto seu respeito significava. Enquanto ela no entendia como algo que ele lhe dera sem pensar, to espontaneamente, podia emocion-la a ponto de no haver volta. Tomou o rosto dele e o beijou, desta vez com suavidade, com um "por favor" embutido.
	Bem,  isso  disse ele, rouco.  Agora, voc est comprometida.
	Isso  uma promessa ou um alerta?
	Uma promessa  disse ele, desabotoando seus punhos para se livrar da camisa.  Eu sempre cumpro minhas promessas, Win.
Ela sentiu um arrepio na espinha, uma excitao que deixou ambos constrangidos. A questo era que Winona acreditava nele, porm, de repente, no tinha tanta certeza sobre aquela situao ou sobre ele... ou sobre si mesma. As luzes e a lareira continuavam acesas; entretanto, quando Justin voltou a beij-la, foi como se recuasse para um corredor escuro.
	Aonde vamos?
	Acho que fazer amor com,voc junto ao fogo seria bom demais, mas vamos deixar para a prxima. Sobre a mesa de bilhar tambm parece excitante... S que esta primeira vez quero que acontea num bom colcho.
	Sei...
O gato comeu a sua lngua, Winona?
Ele a deixava tensa e sabia disso. Winona no tinha medo de nada. Nunca tivera. Enfrentava crianas rebeldes e adultos agressivos ao realizar seu trabalho. Mesmo quando criana, enrijecia-se toda vez que sentia medo... em parte porque no tinha escolha, pois s contava consigo mesma e aprendera a ter coragem. Mas, por algum motivo, agora sentia medo de Justin.
No que ele a tivesse magoado.
Tratava-se de um sentimento curioso, elementar. Sentia os nervos tomados por adrenalina, o corpo quente, os hormnios energizados. Como se fosse se atirar de um penhasco. Sem pra-quedas. Ou como se iniciasse uma caada desenfreada.
Queria Justin.
E estava assustada com algo que no sabia definir, com algo que no conhecia. Ao beij-lo, porm, o medo diminuiu. E quando intensificou o beijo, entregando-se completamente, o medo tornou-se algo divertido e que no queria mais que desaparecesse.
Encostou-se na parede do corredor e, ento, no batente da porta. No tinha como reconhecer o quarto... no porque nunca estivera ali, mas porque Justin no acendeu a luz. Parecia um cmodo estreito e comprido, espaoso, varrido por um vento gelado que entrava pela janela. Captava aromas... sndalo e couro; identificava alguns objetos na escurido... uma cama de metal com postes para dossel, um espelho na cabeceira refletindo a noite e suas sombras.
O quarto era parte de Justin. Sentia a textura do rosto dele, a barba por fazer, os ombros desnudos, a pele quente, os beijos ardentes.
Ele abriu uma gaveta do criado-mudo, pegou algo e a fechou.
	Eu adorarei nossos bebs, Win. Adorarei fazer meia dzia deles com voc. Mas, esta noite, no quero mais ningum nesta cama... no quero que se preocupe com nada... com seus problemas. E no quero que se preocupe com o que farei com voc.
	O que voc quer fazer comigo?  indagou ela, inebriada.
 Amar voc. Como venho imaginando h muito, muito tempo.
Ela sentiu uma forte excitao. Talvez ele no estivesse falando srio. Uma mulher adulta devia saber que no podia acreditar nas palavras apaixonadas de um homem... mas ela acreditava em Justin. Via a sinceridade nos olhos dele, sentia a emoo em seu toque e sua voz. E esse foi o ltimo pensamento coerente que teve.
As ltimas peas de roupa foram descartadas. O ar frio provocou-lhe arrepios, mas ento Justin lhe aqueceu cada centmetro de pele com a lngua e os lbios. No se esqueceu do cotovelo, das costas, da parte interna das coxas... oh, ningum nunca a beijara ali!
Era hora de retribuir. Winona rolou por sobre ele e assumiu o comando. Ele parecia encantado, sussurrando palavras de amor, o brilho no olhar prometendo travessuras. Justin estava fascinado, era o que transmitia. Apreciava e excitava-se com ela no controle.
Era o abandono.
Com ele.
Finalmente, viram-se nus. Ele a fez estender os braos para cima da cabea e a segurou assim, colando seus corpos, seios contra trax, ventre contra ventre, os quadris macios contra seu rgo rgido. A brincadeira no era to divertida naquele instante. Winona sentiu o desejo tomar conta de seu ser, deixando-a angustiada.
	Justin. Venha para mim  pediu, chorosa.
	No quero que se esquea...
	No conseguiria me esquecer disto nem em um milho de anos.
	No quero acordar amanh e... raios, no tenho certeza de que seja uma boa idia.
	Jamais lamentarei este dia, prometo.
	Quero que seja bom para voc, Winona, estou falando srio. Ns podemos dar certo. Ns dois... ns podemos dar certo. Sei que no est acostumada  idia de ns dois juntos...
Francamente. E diziam que as mulheres falavam demais! Convencida de que houvera falha de comunicao oral, decidiu encontrar outro canal. Sem dificuldade, encontrou o membro viril e o acariciou e apalpou, percebendo o efeito, uma vez que no era sua especialidade e no se sentia  vontade com a atitude. Mas entendia que os homens gostavam daquilo, embora ela mesma no ficasse excitada. Se bem que com Justin...
Com Justin, as velhas regras no pareciam aplicar-se. As experincias apresentavam resultados diferentes quando vivenciadas com ele e ela mesma no parecia mais a mesma. No se tratava dela. Tratava-se de amor. E de conceder. Quanto mais experimentava, provocava e aprendia, mais energtica era a resposta masculina. Justin gemeu. Logo depois, gemeu mais alto. Com aqueles toques, ela dava a entender que aquele era seu papel e que faria o que ele quisesse... mas, claro, estava escuro e ele s podia sentir.
Quando ela mesma j no conseguia conter os gemidos, Justin a ergueu e fez se deitar de costas. Winona lembrava-se vagamente de sentir o quarto frio e imaginou se no havia algo de errado com a calefao, pois havia calor por toda parte, principalmente sob o olhar ardente de Justin.
 Queria que acabasse antes de comearmos?  indagou ele.
	Bem, no... Mas estava me sentindo bem. E, j que sou a convidada, acho que devia ser educado, permitindo que eu faa o que tenho vontade.
	Que tal se eu a deixar fazer o que quiser nos prximos dez anos, desde que eu faa do meu jeito esta noite?
	Hum... Bem, a princpio, parece um bom negcio... mas, quanto mais fico com voc, Justin, mais tenho a impresso de que poderia fazer sempre do meu jeito.
	Oh, tudo bem  concordou ele. E beijou-a. Ento, finalmente, tomou-a. Winona no podia estar mais pronta. Justin penetrou-a devagar, sentindo a maciez daquele ninho particular. Ela fechou os olhos, cada vez mais excitada.
	Justin...  Ela j no falava em tom provocativo. Ligada dessa forma a Justin, arqueou o corpo, buscando maior intimidade.
Ele iniciou um movimento cadenciado que estremeceu a cama, o quarto, o universo... era difcil dizer quem comandava.
 Eu te amo, Win... amo  sussurrou ele, carregando-a consigo para o clmax.
No escuro, depois do xtase, Winona tentava recuperar o flego. Na verdade, no queria respirar normalmente, no queria voltar ao normal. Apoiando-se num cotovelo, distinguia o perfil do amante na penumbra, deliciada. A pele dele apresentava uma leve camada de suor, como a sua. A satisfao em seus olhos devia ser um reflexo da sua, tambm. A boca parecia inchada, intumescida com os beijos, assim como sentia a sua.
Ele permaneceu imvel, at perceber que ela o observava. Winona sentiu os dedos dele junto a seus lbios.
	J lhe disse o quanto  bonita?
	J.
	O quanto  sexy?
	Tambm. Na verdade, voc entrou em detalhes.
	J lhe disse que  a amante mais maravilhosa e extraordinria do universo?  Ele se inclinou e a beijou na ponta do nariz.
	Nem vou responder a isso. Mas... se sua proposta de casamento ainda estiver de p, doutor... minha resposta  sim.
Winona chegou em casa s quatro horas da madrugada, girou a chave na fechadura com a percia de um ladro, fechou a porta e percorreu a casa de mansinho at chegar ao quarto do beb. Angel dormia profundamente, de macacozinho amarelo, e sua respirao ecoava pelo ambiente. Cheia de amor, achegou-se ao bero, com cuidado para no fazer barulho, apenas para ver e amar.
 Senti a sua falta  sussurrou, emocionada.  Senti muito a sua falta. Mas, Angel, voc tambm vai amar Justin.
Ele parecia querer o beb tambm. Aps fazerem amor uma segunda vez, conversaram bastante. Ele entendia que o futuro de Angel era cem por cento incerto. No havia garantia de que Winona conseguiria a guarda provisria, nem a adoo. A busca pela me da criana prosseguia. Mesmo que ela no fosse encontrada, Winona poderia no ficar com o beb. Ser casada aumentava suas chances, mas s isso.
Winona ainda rememorava aquela conversa. Justin repetira vrias vezes:
	Isto  entre mim e voc. E no por causa do beb.  Ele parecia falar srio. Por outro lado, o tempo de casada aumentaria as chances de Winona de ficar com Angel... quanto antes se casasse, melhor.  Ento, por que no?  indagou ele.  Se quiser um casamento grandioso e uma lua-de-mel, podemos providenciar. Mas se o beb  o motivo principal; ento, vamos resolver o que  mais importante.
	Para mim, o beb vem em primeiro lugar, Justin... porque  ela que pode sofrer, ela  vulnervel. Se eu puder tornar a situao mais segura para ela, sinto que tenho que fazer isso.
	Eu sinto a mesma coisa. Trata-se de uma inocente numa situao precria e as necessidades dela no podem esperar.
Justin entendia de fato. Ela lhe acariciou o rosto.
	Mas voc no pode se casar comigo por causa do beb, doutor.  loucura.
	Eu no me casaria com ningum por causa de um beb. Concordo com voc.  loucura. Mas se ajuda voc estar casada, por que no? Tratando-se de algo que ns dois queremos e que acreditamos ser certo?
	Mas voc nunca quis se casar comigo antes.
	Win. Voc obviamente no me conhece. Mas conhecer  disse ele, e beijou-a novamente.
Winona inclinou-se sobre o bero e confidenciou ao beb adormecido:
	Estou louca por ele, Angel  sussurrou ela.  E ele vir aqui amanh. Vamos ver como voc se sente com ele, certo?
	Ento...  A voz de soprano vindo da porta anunciava Myrt.  Finalmente chegou. Divertiu-se?
Winona quase deu um pulo, sentindo-se culpada. Apressou-se para sair ao corredor, fechando a porta sem fazer barulho.
	Myrt, lamento muito ter chegado to tarde. No queria me aproveitar de voc assim...
	Nossa, garota, acho que voc no me ouviu. Eu lhe disse que sou louca por bebs e me ofereci para ficar. Alm disso, no  como se eu fosse estranha... voc sabe que trabalho para Justin h muito tempo, ainda que ns no tenhamos conversado muito antes.
	Eu sei, eu sei... mas s no quero que fique pensando que eu...  Winona levou a mo  nuca, constrangida.
	Que voc dormiu com meu patro? Bem, eu devia dizer que no  da minha conta, para no se preocupar... mas no seria verdade. Quando Justin me contou da situao do beb, que voc trabalhava o dia inteiro e que precisava de ajuda... eu vi o jeito dele, ao falar de voc. Para ser honesta, eu sempre quis dar uma de casamenteira...
 Ele me pediu em casamento  revelou Winona.
Myrt abriu um sorriso.
	Isso  maravilhoso. Mas agora acho melhor voc dormir. Conversamos sobre o esquema de horrio e o beb pela manh.

	Seja l o que voc est tomando, quero uma receita tambm  comentou a dra. Harding ao passar por Justin no corredor.
Concentrado na conversa com o colega, ele nem percebera que sua risada ecoara pelo corredor, at ouvir o gracejo da doutora enquanto se afastava.
 Ela tem razo.  Ben Rassad sorria maroto.
 Voc est de muito bom humor hoje. Aconteceu algo especial para voc ficar to contente, Justin?
	Acho que s estou me sentindo feliz.
	Sucesso no departamento "mulheres", s pode ser.  Ben no costumava brincar; porm, vez ou outra, revelava o senso de humor entre amigos.
Justin no confirmou nem negou a desconfiana, mas sabia que era verdade. O dia todo, andara meio flutuando, com uma nova luz nos olhos. Nem a sobrecarga de trabalho lhe tirara o humor. Era como se Winona estivesse ali, em seu corao, estimulando-o.
Mas nem por isso podia negligenciar outros assuntos srios. Recomps-se... Ben tambm... quando chegaram ao quarto de Robert Klimt. Entraram em silncio.
Justin no era o mdico de Klimt, mas deu uma olhada no pronturio para ver a evoluo de seu quadro clnico aps o acidente. No simpatizara com o homem, mas evidentemente no lhe agradava v-lo naquele estado. Em coma. Moribundo. Justin tomou o pulso e checou o equipamento.
 No h previso de quando ele vai sair do coma?  indagou Ben.
	Na verdade, no. O mdico principal... Busher...  muito bom. Ele pediu outras avaliaes para corroborar seu diagnstico.  s vezes, os pacientes mesmo desacordados podiam ouvir e Justin procurou dar uma resposta animadora.  Digamos que, quanto antes ele acordar, menores so as chances de sequelas. Quem sabe um dos ocupantes pode ter presenciado alguma coisa... E Aaron, ele ainda est em Washington?
	Sim. Mas Walker conseguiu falar com ele ontem. Portanto, ele j est sabendo do roubo e do assassinato. Gostaria que Aaron j estivesse aqui. As autoridades de Asterland esto cada dia mais preocupadas com a falta de definio quanto s causas do acidente. Ben contemplou a parafernlia conectada a Klimt.
 Se ele acordasse... talvez tenha visto algo. O fogo comeou perto dele e de lady Helena. E duas das pedras estavam bem perto. Se algum sabe de alguma coisa  ele.
Justin concordou.
	Sem provas de que o acidente est relacionado ao roubo, no podemos arriscar um incidente internacional. Mas desconfio de que o governo de Asterland vai enviar um representante, se as respostas no comearem a surgir.
	Eu faria isso, no lugar deles.  Ben endireitou o corpo.  E ainda no encontramos o diamante vermelho, mas claro que no est com Klimt.
	 a nica certeza que temos.  Justin hesitou.  Preocupa-me que os outros possam estar correndo perigo. Afinal, no se trata de um ladro apenas, mas de algum preparado para matar. E, se o assassino era um passageiro do avio, outros continuam vulnerveis... porque viram ou sabem de alguma coisa. Mesmo sem perceber.
	J conversou com lady Helena?  indagou Ben.
	Eu a vejo todos os dias. Ela  corajosa, mas quase no se lembra do que aconteceu. O episdio foi muito traumtico e ela deve concentrar toda a energia em sua recuperao. Talvez, daqui a algum tempo, ela se lembre de alguma coisa.
	Bem, voc chegou a conversar com Winona?
	Sim. Ontem  noite. Ela nem hesitou, ofereceu-se para fazer o que estivesse a seu alcance.  Justin verificou as horas no relgio de pulso.  Passa das cinco. Preciso ir.
	Vai se encontrar com ela.
	Sim. E pare de sorrir assim ou terei que bater em voc  ameaou Justin, e os dois saram do quarto de Klimt.
	Marcamos outra reunio para tera  noite?  props Ben.  Precisamos decidir o que fazer com as duas pedras e adotar medidas de segurana?
	Por mim, tudo bem.
	Eu aviso os outros.
Justin ainda sorria ao caminhar pelo estacionamento. Ao entrar no carro, porm, sentiu um frio na espinha. No pensava na Bsnia havia muito e os pesadelos cessaram desde que Winona entrou em sua vida pessoal de fato.
Devia esquecer-se da Bsnia e se concentrar em Winona.

CAPTULO IX

Winona ouviu a batida na porta, engoliu em seco e apressou-se para atender. Ainda no eram seis horas e sabia que era Justin. Passara o dia com a cabea nas nuvens, ansiosa pelo momento de v-lo novamente... Ainda queria v-lo, mas as circunstncias haviam mudado.
Abriu a porta com Angel nos braos. O beb estava pronto para jantar, de macacozinho cor-de-rosa estampado de coraes cor-de-rosa e botinhas cor-de-rosa. Linda assim, era capaz de derreter um corao de pedra... se no estivesse chorando a plenos pulmes.
	Oh, Justin, temo que...
	Qu?  Ele levou a mo em forma de concha ao ouvido, incapaz de ouvir sua voz.
	Acho que no posso sair para jantar!  berrou ela.
	Bem, vamos apelar para o plano B, ento.  Ele entrou, fechou a porta, despiu o palet e agitou os dedos.
	Quer mesmo peg-la?  questionou Winona.
	Ora, ela pode chorar tanto nos meus braos quanto nos seus, no pode? Mas o que foi que houve com esta fofura...
	Ela no est com fome, no est cansada, no est doente e  meio nova para tenso pr-menstrual...
	Ora, no critique a minha segunda melhor garotinha.  Ele beijou Winona... na ponta do nariz... e tomou o beb no colo. Atnita, Angel parou de chorar um segundo para avali-lo.  Eu no sou o camarada mais bonito que viu hoje, querida?
Winona queria outro beijo. Um mais forte e romntico do que uma bicada no nariz. Angel acabou de analisar Justin e pareceu se decidir. Primeiro, fungou de leve; a seguir, reabriu o berreiro com que avisava todo mundo num raio de cinco quilmetros de que no estava feliz.
	Pois bem  decretou Justin.  Pegue o seu casaco e o do beb tambm. Vamos dar uma volta.
	Justin, no podemos lev-la a lugar algum assim.
	Bem... acho que ela ainda no sabe chantagear para ir a um parque de diverses, mas tenho certeza de que conseguiremos encontrar algo que faa Sua Alteza sorrir.
Winona reparou que os dois estavam com olheiras. Era como se o beb desconfiasse do que eles fizeram na noite anterior e garantisse que no tivessem oportunidade de repetir a dose. Bastou coloc-la no carro para que a pequena tirana espaasse o berreiro, s para se manter em forma, apreciando o caminho at a casa de Justin.
 Vai ser bom, porque assim no teremos que nos preocupar com o jantar  comentava ele.  Myrt deixou algo na geladeira. Bife, acho. No tenho certeza, mas  algo que podemos preparar rapidamente. Alm disso, tenho muitos assuntos para conversar com voc.
Winona no sabia como ele conseguia. Em cinco minutos, j a fizera despir a jaqueta, descalar os sapatos e tomar um drinque, preparando-a para cozinhar. A liderana no a surpreendia. No podia fazer nada com Angel no colo. O beb parara de chorar... mas Justin no podia parar de se movimentar.
 Realmente, Win, para mim tanto faz onde vamos morar. Se preferir a sua casa, timo. Mas eu tenho bastante espao aqui. E Myrt j est instalada. No que isso importe... E, como os quartos l em cima ficam longe da sute principal, pensei em transformar o escritrio em berrio...
Ele abriu a porta do escritrio. A decorao era pesada, cor de vinho e verde-escuro. Num canto, havia um computador de ltima gerao. Do sof tinha-se vista para o jardim com a fonte luminosa.
	Isso tudo  muito escuro. Podamos levar tudo...
	Tudo?
	Sim, todos estes mveis l para cima, para um dos quartos vagos. Ento, poderamos redecorar este cmodo, com cores de beb... bem clarinhas. H espao para o bero e uma cadeira de balano. E ali fica o banheiro... em cores escuras tambm... Quero dizer, por enquanto, acho que conseguimos adaptar este quarto. Angel no engatinha ainda, no ser problema. Posso contratar dois carregadores amanh e esvaziar isto aqui num instante.
Na cozinha, Justin tentou deixar Angel no carrinho, mas ela protestou e teve que peg-la no colo novamente.
J se preocupava em instalar pequenos portes de segurana bloqueando as portas dos ambientes mais perigosos para crianas pequenas e monitores de vdeo para poderem observar Angel o tempo todo. Pensava at em trocar seu carro esportivo por um modelo tradicional, de modo a acomodar melhor o banco de criana e o carrinho. O telefone tocou e ele mais uma vez tentou depositar Angel no carrinho. Ela protestou e ele atendeu ao telefone com ela no colo.
Em seguida, sem largar o beb, pegou po, carne fatiada e alface na geladeira para preparar sanduches. Ainda olhou para Angel, decidindo se tentaria larg-la para comer o sanduche, mas optou por comer s com a mo livre.
Antes de o jantar acabar, Winona estava ainda mais apaixonada.
Com certeza, j estava apaixonada antes, mas o sentimento se permeava de luxria. Agora que vira Justin fazer mil coisas com Angel no colo, sem nunca perder a pacincia, sentia uma ternura imensa por ele. Aquele era Justin no papel de pai.
	Justin?
	Sim?
	Voc me assusta com tantos planos. Parece que j pensou em tudo, como se tivesse certeza...
	Porque tenho certeza, Win. Ns vamos nos casar. Eu sei. Quanto antes, melhor.
O beb babou em cima dele.
 Se no se importa de mudar de assunto s por um minuto, queria avisar que... se estiver bem para voc... assim que Angel dormir... vou partir para cima de voc.
Justin limpou o rosto de Angel.
 Ah ? E o que eu tenho que fazer para convenc-la a ir para a cama?
Winona riu, mas no havia pressa em fazer Angel dormir. Ela estava cansada, mas devia haver algo mais, pois no parava quieta... a menos que Justin a pegasse no colo.
	Tenho uma idia  anunciou ele.
	Idias no vo ajudar  replicou Winona.  Precisamos de um milagre.
Mas parecia que Justin era capaz disso tambm. Ele abriu a torneira da banheira e, enquanto Winona tirava a roupinha de Angel, trouxe velas, acendeu-as e escolheu um CD de msicas romnticas.
 Est vendo como eu consigo deixar sua me nua rapidinho? E voc achava que eu no era esperto, hein, Angel?
Era um cenrio prprio para amantes, no para o banho de um beb. A hidromassagem, as velas, as chamas tremeluzentes. O fundo musical romntico. A penumbra e a nudez, o escrutnio de Justin do canto da banheira, a brincadeira de roar os dedos dos ps.
O beb balbuciou e riu quando Winona a passou para Justin. Angel achava que era uma festa s para ela... e aquele presuntinho conseguia divertir os dois adultos... embora Winona continuasse apreciando Justin. Sim, sentia o desejo crescendo entre eles. Mas tambm via que ele relaxava, como Angel.
Acostumada a manter as emoes sob controle, conseguia identificar em Justin o mesmo comportamento. No trabalho, ele era descontrado, mas raramente demonstrava o que queria ou precisava em sua vida... em especial depois que voltara da Bsnia.
Winona observou o beb agarrar o nariz de Justin. Ele riu brando. Demonstrava uma tranquilidade natural com a criana. Winona apaixonou-se novamente. Profunda e irreversivelmente.
Teve que se levantar.
 Voc viu isso, Angel?  provocou Justin.  Sua me est tentando me enlouquecer. E est conseguindo.
	No podemos ficar aqui a noite inteira.
	Por qu? Ela est feliz.
	Porque ela vai ficar mimada. Mas brinque com ela mais um pouco, sim? Enquanto vou esquentar a mamadeira e arrumar um lugar para ela dormir.
Evidentemente, Winona levara a bolsa com roupas e a mamadeira, mas no lhe ocorreu que passariam a noite fora. Enrolada numa toalha, avaliou os mveis do trreo, imaginando um arranjo seguro para Angel. Optou pelo sof no escritrio, com duas cadeiras cercando o lado aberto, criando um nicho seguro. Aps forrar o assento com o lenol de plstico, o lenol comum e o cobertor, foi esquentar a mamadeira.
De volta ao banheiro, encontrou a srta. Mimada enrolada numa toalha grossa, s com a cabecinha para fora, enquanto Justin lhe fazia ccegas.
	Shh. Estamos tentando acalm-la  censurou Winona.
	Ela no quer ficar calma. Gosta de ficar sem roupa. Sabe com quem eu acho que ela se parece?
	Com voc. O dia inteiro  murmurou Winona.
	Estava pensando em voc. E imaginar que andou por a assim e eu aqui...
	Bem, eu admito que tambm fiquei pensando em voc, doutor.
Poderia flertar com Justin indefinidamente... mas algo lhe chamou a ateno. O beb bocejou. Rapidamente, arrumou a fralda e a roupinha em Angel. Ela soltou outro bocejo quando a tomou nos braos. J com as plpebras fechadas, Angel sugou o leite da mamadeira.
 Agora, ela dormiu  sussurrou Winona.  Eu improvisei um bero no escritrio. Volto j.
Aps acomodar o beb entre as cobertas, Winona deu-se conta do tempo que permanecera seminua diante de Justin. O que lhe parecera natural havia pouco, naquele instante era... diferente.
Na verdade, foram amantes por uma noite apenas... foi quando pressentiu um ataque de nervos. Tecnicamente, era o que ambos queriam, ou seja, passar a noite juntos com o beb adormecido. Parada no corredor, imaginou que Justin j estava cansado da banheira. Mas seria presuno ir ao quarto? Devia se vestir? Ento, ouviu a voz dele.
 Win? Venha c.
Ela atendeu, aproximando-se da banheira devagar.
	Sim, eu sei  disse ele, gentil.  J estamos aqui faz tempo e precisamos dormir tambm, no ?
	Sim...
	Mas, que tal se voc vier aqui s um minuto. Vou esfregar as suas costas.
Ela voltou para a banheira espalhando gua e arrancando uma risada de Justin.
 Voc no joga charme, hein?  provocou ele, alojando-a entre as pernas para lhe massagear o pescoo e os ombros.
Ela fechou os olhos cansados, inclinou a cabea para a frente e gemeu.
Ele continuou esfregando e acariciando.
 Em que est pensando, Win? Quando estava dando a mamadeira a Angel h pouco, ficou sria de repente.
Ela pensava que finalmente acreditava nele... acreditava que ele queria realmente se casar com ela. No era sonho. Era verdade. Todo aquele planejamento para acolher o beb era uma prova. E o jeito como ele tratava Angel era um indcio de que tinha sentimentos fortes e genunos pelo beb e que se divertia no papel de pai. Entretanto, restava-lhe dvida quanto  relao dos dois. Conheciam-se havia tanto tempo... mas at Angel surgir, nunca imaginara Justin dedicando-lhe esse tipo de sentimento.
Como ele conseguira disfarar, sufocar a emoo por tanto tempo?
E como ela mesma se enganara?
Winona fechou os olhos, esforando-se para oferecer alguma honestidade.
 Estava pensando... Bem, eu quase no me lembro de minha me. Mas lembro-me da manh em que acordei e percebi que ela fora embora. Eu era bem nova... mas sabia que estava sozinha. Lembro-me de me sentir abandonada, de sentir que havia algo errado comigo para minha me me deixar. E, por mais que quisesse um filho, Justin, acho que no fundo temia no ser uma boa me. Que esse defeito meu aparecesse. Esse defeito que me tornou indigna de amor...
Ele remexeu o maxilar, querendo verbalizar algo, mas apenas incentivou-a:
	E...
	E ento eu o vi brincando com Angel. Fazendo-lhe companhia. E vi a alegria e o fascnio em seu olhar...  assim que eu me sinto tambm. Essa alegria. Esse fascnio. No, no sei o que estou fazendo, mas esse amor, esse lao que tenho com ela  maior do que eu. Sei que posso ser uma boa me.
	Oh, Win, no acredito que tenha duvidado de si mesma.
	Bem, eu duvidei.  difcil explicar, mas duvidei... que poderia ir em frente. Achava que minha me tinha me deixado porque havia algo errado comigo e que isso afetaria meu desempenho como me.
	Winona, voc vai ser a melhor me do mundo. Ou melhor, j . Raios, no sabia que voc se preocupava com isso...  Ele hesitou.  Quando voc ficou sria, pensei que tivesse descoberto algo sobre a me de Angel... e que ainda no tinha me contado.
	Estou descobrindo fatos todos os dias, mas nenhum deles me ajudou a levantar a origem de Angel at agora.
	Ento... cogita a possibilidade de ficar com ela?
	 claro que penso nisso. Muito. E vou continuar preocupada at sabermos o que ser dela. No posso evitar, assim como no posso parar de desejar que ela fique comigo... conosco.  Encarou-o.  Mas no  por isso que estou aceitando a proposta de casamento.
	A proposta...
	Eu nunca lhe dei uma resposta direta, no ? Quero dizer... voc j est fazendo planos para o casamento e para a vida em comum... mas eu nunca admiti antes que estou apaixonada por voc, doutor. Realmente apaixonada. Profundamente apaixonada...
Ela no terminou, porque ele a beijou. Winona aguardara aquele beijo a noite toda. Durante a cena sedutora com as velas e a msica romntica... enquanto ele brincava com a nen...
Winona gemeu de desejo enquanto ele aprofundava o beijo. Justin introduziu-se e ela o enlaou com as pernas.
Vamos nos afogar...  advertiu, ofegante de deleite.
 J estou me afogando  corrigiu ele, beijando-a novamente.  E estou sem preservativo  avisou, lembrando-se assustado.
 timo  opinou Winona. Ele sorriu.
	No quero ter s um beb com voc, Win, quero meia dzia. E, vou avisando, planejo fazer amor com voc pelo resto da noite.
	timo  repetiu ela.
	Sero ento duas noites sem sono decente. No vamos passar de bagao pela manh.
	timo  confirmou ela.
Winona tomou o rosto dele, aproximando-o. Ento, pressionou as coxas para ajustar-se melhor. Ele no disse mais nada depois disso. A gua transbordou quando eles afundaram, quase se afogando. Justin rolou sobre ela e posicionou-a junto aos jatos de gua morna que os massageavam...
Perdida naquele mundo encantado, Winona no queria acordar. Em algum momento, durante a noite, perdeu toda a inibio. A inibio importante, aquela que considerava necessria para sobreviver. Com Justin, tudo era diferente. Com ele, deixava-se abandonar...
Mas da forma mais maravilhosa possvel.
 Eu te amo, Winona Raye  sussurrou ele, antes de lev-los ao xtase.
No dia seguinte, Winona dirigia o carro com Angel na cadeirinha a seu lado e mal disfarava a felicidade. Durante a manh, as lembranas da noite invadiram seus pensamentos, deixando sorridente... mas agora o bom humor tinha outro motivo.
Na noite anterior, ela finalmente dissera sim. At indagara sobre a data do casamento, mas Justin no quis marcar.
Para um homem que pressionara tanto, era engraado que, quando as questes prticas surgiam, simplesmente no conseguisse ser objetivo.
Winona estacionou diante da lanchonete, pegou Angel, a bolsa com fraldas e o carrinho.
 Voc j veio aqui, lembra-se, Angel? E hoje vamos encontrar uma amiga.
Assim que entraram, Winona localizou Pamela Miles sentada numa das banquetas.
	Oh, Pam, eu no queria me atrasar. Espero que no esteja esperando h...
	Absolutamente. S estou aqui h um minuto. E o que temos aqui?
Winona sorriu. Pamela fez um carinho em Angel, que gostou da ateno, deu um chute no ar e balbuciou animada.
 Esta  a Angel, o motivo de marcar este encontro com voc. Mas vamos pedir o almoo, sim?
Acho que voc tem tanto tempo livre quanto eu.
Sheila fez uma bola com o chiclete e pegou o bloco para anotar os pedidos.
	Oi, Pam, as marcas roxas j esto sumindo, hein? Voc parece bem melhor.
	Eu estou bem, exceto que ando com pouco apetite.
Winona olhou para a professora primria. S agora lembrava-se de que Pamela deveria estar em Asterland, no programa de intercmbio de professores, no fosse o acidente com o avio.
	Voc est bem de verdade?  indagou, preocupada.
	tima. Comparada aos outros, no sofri nada. Somente umas batidas e raspes. Embora deva admitir que fiquei traumatizada por alguns dias. Foi uma experincia terrvel e ainda ho consigo me alimentar bem, ando sem apetite.
	O programa de intercmbio foi adiado?
	Sim. Eu adoraria ir para l, mas ter que ser em outra oportunidade. Eles no podiam deixar as crianas sem aulas e eu no soube dizer em quanto tempo estaria em condies de viajar. Foi melhor adiar tudo. Assim, de repente, fiquei meio disponvel por um semestre... Mas, por favor, Winona, no perca o almoo colocando a conversa em dia, eu sei que precisa tratar de algum assunto comigo.
	Sim  confirmou Winona, meio hesitante. Conheciam-se devido a seus trabalhos. Pamela chamara-a vrias vezes para conversar sobre ocorrncias com seus alunos. Antes disso, Winona s ouvira falar da reputao da me de Pamela.
A professora era um tipo comum, usava os cabelos pretos num corte curto e simples e pouca maquiagem. Seu olhar iluminava-se perto de crianas. Winona nem sabia como comear.
	Acho que j ouviu falar de Angel. Algum a abandonou na minha porta h algumas semanas. Estou tentando localizar a me desde ento.
	Ouvi, sim. A cidade toda est encantada por ver voc trabalhando com um beb a tiracolo.
Winona assentiu.
	Eu sei que voc trabalha com crianas menores e no tem contato com adolescentes, mas at agora no encontrei uma pista que levasse  me de Angel. Tambm no sei se a me era uma adolescente... mas deve ser algum da cidade, porque me conhecia pelo nome. Ento, tinha esperana...
	Tinha esperana de que eu soubesse algo?
	Sim. Eu sei que  pouco provvel... mas todas as medidas padro no levaram a nada. Como comentam que crianas de todas as idades conversam com voc, tinha esperana de que pudesse ter ouvido sobre alguma garota com problemas...
	Bem... Na verdade, sei de algum.  Pamela bateu o dedo na mesa.  Estou tentando me lembrar do nome da mulher. Ela estava na festa... algum comentou que ela perdeu um beb antes do Natal, mas na hora, s achei estranho. Voc sabe como  aqui em Royal. A cidade inteira teria comparecido ao funeral para dar apoio. S que no houve nada...  Meneou a cabea.  Isso  bobagem. No sei nada. Foi s uma fofoca que ouvi e, para dizer a verdade, no estava prestando ateno em nada naquela festa...
	Entendo.  Angel comeou a se mexer e Winona ofereceu a mamadeira.  Eu a vi danando com Aaron Black.
Pamela enrubesceu.
 Eu me senti a prpria Cinderela... e acredite, no sou f de contos de fada. Nem gosto de festas. S fui porque era um evento ligado a Asterland, onde eu iria fazer o intercmbio... pensei que encontraria outros estrangeiros l... mas eu no pertencia ao grupo.
Winona notou a insegurana da outra mulher.
	Ora, o que isso quer dizer?
	Vamos. Voc conhece Aaron... ele parece um prncipe. Alto, sofisticado, bonito...
	E, ele  bonito.  Winona conhecia Aaron. Ele trabalhava com relaes exteriores e sempre viajava. Era muito difcil v-lo na cidade, exceto nos feriados importantes.
	Eu a vi na festa tambm, Winona. No admira voc no prestar ateno em Aaron... S tinha olhos para um outro algum.
	Hein? Do que est falando?
 Vamos. Eu a vi danando com vrios rapazes, mas s ficava olhando para o dr. Webb.
Winona ficou atnita com a declarao de Pamela. Seria possvel que todos percebessem a qumica entre ela e Justin antes que ela mesma se desse conta? Tudo ia bem, mas sentia que algo na vida de Justin ainda no estava certo, algo no corao, e que ele no queria lhe contar.
	Est bem, vou parar de aborrec-la  disse Pamela.  Se no quer falar sobre o doutor bonito, no vou pressionar. Mas estou atenta a qualquer comentrio que possa conduzir  me de Angel. Voc quer ficar com ela, no quer?  especulou, gentil.
	Quero. J sinto como se fosse minha, mas a melhor forma de proteg-la  descobrindo a verdade.
	, acho que sim.  Pamela levou a mo ao abdome.  Desculpe-me, tenho que ir.
Winona percebeu o gesto.
	Voc est bem? Precisa de ajuda?
	No, estou tima.  que, desde o acidente, nada parece cair bem no meu estmago. Talvez seja estresse ps-traumtico ou algo assim. Vou dar mais um tempo antes de procurar um mdico.  Ela se levantou, apertou a mo de Winona e beijou a testa do beb.
Angel acabou a mamadeira e Winona levou-a ao ombro para arrotar. Ainda pensava em Justin. De repente, no tinha certeza se ele realmente precisava dela.

CAPTULO X

Justin levou Winona para jantar e estava to abalado que riu de si mesmo. Nunca foi o tipo nervoso. No podia. No trabalho, realizava cirurgias que duravam horas, durante as quais no podia hesitar, nem permitir que emoes lhe distorcessem o julgamento. Mesmo assim, naquela noite, sentia o estmago azedo, a pulsao acelerada, a palma das mos midas... e a caixinha no bolso parecia pesar uma tonelada.
Esperava sentir-se melhor ao v-la... s que no foi bem assim.
Winona deteve-se ainda mais alguns minutos, instruindo Myrt sobre os hbitos do beb. Ento, vestiu um casaco, muito necessrio naquela noite fria de janeiro, sobre o vestido de seda preta. Quando se arrumava, Winona nunca usava roupas extravagantes, nada que chamasse a ateno sobre ela. Mas havia algo diferente nela... algo perigoso, preocupante. No tinha idia do que podia ser... o corpete tentador, a sombra nos olhos, o leve perfume.
Seu corao, que j estava acelerado, disparou.
Justin afrouxou a gravata antes de estacionar o carro e acompanhar Winona at o restaurante elegante na rua principal da cidade, passando pela rea comercial e pelo hotel antigo. Flocos de neve flutuavam ao redor, criando uma atmosfera de magia na noite.
Royal era uma cidade rica por causa do petrleo, mas no sofisticada. Aquele restaurante era uma exceo. L dentro, o som era abafado, as mesas tinham toalhas de linho branco, com arranjo de rosas naturais no centro. O menu no apresentava preos. O tapete era cor de vinho e o papel de parede tinha uma textura macia em vermelho. Num canto, um pianista de smoking tocava canes de amor.
Justin ajudou Winona a despir o casaco.
 Uau, este restaurante continua impressionante  comentou ela.  J estive aqui antes. Sabe como , os Gerard vinham aqui para comemoraes especiais, como todo mundo... pelo menos todo mundo que pode pagar. Mas sempre fico imaginando... o que acontece se algum tropea? Ou arrota?
Apesar da caixinha "pesada" no bolso, Justin relaxou. Como pudera se esquecer? Era natural estar com Winona, apesar de ela estar to sedutora naquele vestido.
	Est tudo bem  assegurou ele.  Nada ruim pode acontecer aqui, portanto, no tem que se preocupar com isso.
	Ah. E assim que funciona? Eu sempre tenho a impresso de que a minha meia vai desfiar quando entro aqui. Ou melhor, que eu sou a nica mulher no restaurante com uma falha notvel na meia.
	Ora, pode ser. Mas, se isso acontecer, voc tira a meia e o que estiver por baixo desse vestido e passa para mim.
	Justin!
	Talvez devssemos ir para casa. No est com fome, est? Eu estou, mas no de comida...
Winona abriu o cardpio.
	Voc  mau e uma pssima influncia  acusou, severa, e ento sorriu, angelical, para o garom.
	Vamos comear com o melhor vinho que tiver na adega  disse Justin, s para chamar a ateno de Win.
	Fala daquele vinho que chegou com os colonizadores?  desdenhou ela.
	Pode apostar. Aquele suco de uva s estava esperando por ns.  Justin dirigiu-se ao garom:  No se importe conosco. Estamos abobalhados. Enquanto isso... queremos os melhores bifes que voc tem l atrs... e no estou falando daqueles que vm do Kansas. Queremos bifes texanos ou nada... e mais mal-passados do que promessas de polticos.
	Sim, senhor.  O garom se foi contendo o riso.
	Tire os sapatos, Win. Voc est comigo. Vamos nos esbaldar hoje ou morreremos tentando. No pense em bebs, nem em nenhuma outra preocupao, est bem?
Ela sorriu e Justin teve vontade de cantar. Em pblico. Ela ergueu a mo e entrelaou os dedos nos dele, como se no houvesse mais ningum no restaurante. Justin no sabia como vivera sem ela. Estava eufrico por saber que conseguia faz-la relaxar, embora essa sensao no durasse muito tempo, infelizmente.
Ela deixou de sorrir.
 Justin, eu queria mesmo conversar com voc... mas h dois homens sentados na mesa do canto junto  janela. No devem ser da cidade, porque nunca os vi antes e h algo estranho nas roupas.
A questo  que eles ficam olhando para voc...
Justin no olhou por sobre o ombro. Reparara nos dois homens quando entraram.
	Eu sei. Seus nomes so Milo e Garth. Que par, hein? Eles me lembram ces de guarda.
	Ces...  Ela olhou para os dois e mal conteve o riso.  Justin, no seja maldoso!
	Mas  verdade, no ?  O garom trouxe uma garrafa aberta e Justin dispensou-o, pois queria servir ele mesmo as taas.
	Bem, ento voc os conhece? Oh, eles esto vindo para c.
Raios. S havia dois seres humanos que Justin gostaria de ver naquela noite... uma era o beb e a outra... a nica que ele realmente queria... era Win. Mas forou-se a erguer o olhar. E, como Winona alertara, as ms notcias pareciam cair sobre eles.
Milo, o mais alto, parecia mesmo um co de guarda, tipo rottweiler. Garth, por sua vez, lembrava mais um buldogue.
Ambos aproximaram-se da mesa com um sorriso corts.
	Dr. Webb,  bom v-lo noyamente. No queremos interromper o seu jantar, mas, quando o reconhecemos, achamos que devamos dizer ol.
	Que bom  mentiu Justin e apresentou Winona... embora nem que o matassem convidaria a dupla para se sentar  mesma mesa.  Milo e Garth so de Asterland, Winona...
Milo ampliou o sorriso.
	Sim, chegamos ontem  afirmou o rottweiler.
	... e vo investigar os problemas com o avio. Com certeza, juntando esforos de Asterland e do Texas, poderemos encontrar respostas mais depressa, certo, cavalheiros?
	Assim esperamos.  Milo meneou a cabea.  J que est aqui, dr. Webb... eu e Garth estvamos vendo a lista de passageiros. Por acaso, conhece bem a srta. Pamela Miles e a srta. Jamie Morris? Justin sentiu o olhar de Winona em seu rosto e roou o tornozelo nela, indicando que queria lidar com aquilo sozinho.
	Sim, as duas so moas que moram na cidade. Embora eu esperasse que considerassem todos os passageiros da lista e no apenas essas duas, que, inclusive so americanas.
	Claro, claro. Acontece que os americanos so os mais desconhecidos para ns.
E seria muito mais fcil culpar um americano pelo acidente, pensou Justin.
	Bem, para ser sincero, no estou em posio de responder sobre elas. Nem a srta. Raye aqui. Mas tanto a srta. Miles quanto a srta. Morris sempre moraram em Royal e acredito que no encontraro nada que as desabone.
	Claro. Obrigado.  Garth assentiu a Justin e, ento, a Winona.
Quando se afastaram, Winona franziu o cenho.  O baixinho me deixou nervosa, doutor. Justin deu de ombros.
	No estou surpreso com a presena de enviados de Asterland para investigar o acidente. No vejo nada estranho nisso. Mas foram atrs de mim em busca de informaes assim que chegaram. Tive a impresso de que achavam que conseguiriam mais de um mdico do que das autoridades. O que me deixou desconfiado foram as perguntas estranhas... Mas vamos esquec-los, certo?
	Certo.
	E como est o meu beb hoje?
	O seu beb comeou a manh encantando todo o departamento de proteo  juventude. Juro que ela s chora quando est sozinha comigo. Em pblico, justifica o nome.
	Myrt vai ficar triste em ouvir isso. Adoraria ficar de bab dia e noite...  A conversa seguiu leve durante o jantar. Saborearam bife com molho Barnaise, ervilhas e pur de batata. Quando retirou os pratos, o garom sugeriu como sobremesa um creme brle e Winona gemeu.
	Eu no posso.
	Claro que pode.  Justin pediu duas pores.
	Voc no entende. Tenho um fraco por sobremesas. No posso me render ou vou ficar gorda como uma baleia.
	Tenho quase certeza de que eles no incentivam a demonstrao de orgasmos diante de sobremesas aqui.
	V. Esse  o problema.  Relaxada, Winona se parecia mais consigo mesma. Atrevida e valente... valente para mergulhar na sobremesa.  Voc trouxe o carrinho de mo para me tirar daqui, no ?
	No. Mas trouxe outra coisa.  Ele enfiou a mo no bolso e percebeu que estava trmulo.
	Justin...  Talvez Winona sentisse que um momento importante aproximava-se, porque comeou a falar sem parar.  Vamos conversar sobre alguns problemas, est bem? No sei o que o est aborrecendo, mas ocorreu-me que pode ser sobre a casa. Sabe o que eu quero dizer. Em que casa vamos morar? Para mim no importa, mas minha casa  to pequena que a sua casa parece ser a melhor opo.
	Bem, a sua casa  pequena demais para ns trs, mas isso no nos impede, Win. Se no gosta da minha casa, podemos procurar outra ou construir uma.
	Est falando srio?
	Eu quero o melhor para voc. E para o beb.
	Bem... eu adoro a sua casa. Ento, a menos que voc queira se mudar, acho que  ideal. Embora...
No ia dar certo. Justin sabia que no conseguiria conversar normalmente enquanto seus pensamentos estivessem na caixinha. Por isso, aproveitando um instante em que ela levava mais um bocado de sobremesa  boca, pousou a caixinha sobre a mesa. Quando ela baixou a colher, percebeu o item novo.
Embora ainda no tivesse terminado a sobremesa e desejasse continuar... Winona largou a colher e encarou Justin.
	Posso... abrir?
	Terei um ataque cardaco se no abrir. Voc no precisa gostar, Win. Eu queria lhe fazer uma surpresa. Mais tarde, quero que tenha uma lembrana que goste de ver todos os dias. O melhor joalheiro que conheo fica em Austin. Podamos pegar um avio at l e encomendar uma pea...
Winona no prestava mais ateno e Justin desistiu de falar. Ela abriu a caixinha. Era s um anel. No de diamante porque, depois que se tornara membro do Clube dos Pecuaristas, certas gemas tinham um significado especial. A safira azul significava individualidade, originalidade, como a prpria Winona. No optara por uma pedra grande porque sua eleita no gostava de ostentao, mas aquela jia apresentava um corte nico. O tom azul-claro no era comum entre as safiras, mas combinava com os olhos de Winona.
Justin preparara um discurso para comunicar tudo aquilo, principalmente porque queria contar-lhe... mas tambm para distra-la e impedi-la de recusar o presente.
Ela se atirou nele, enlaando-o pelo pescoo, arrastando a colher e prato de sobremesa, fazendo barulho o bastante para chamar a ateno dos demais clientes. Ele viu o brilho nos olhos da amada e quase morreu ao perceber que ela chorava.
Foi quando ela o beijou.
Ou ele a beijou. Nessa altura, quem podia saber? S importava o beijo exuberante, vido, que aos poucos se tornou suave. Reverente.
O beijo era uma promessa, um voto. Raios, Winona se apoderara de seu corao novamente. Toda vez que a tinha nos braos, Justin sentia as entranhas se derreterem. Tinha a ntida sensao de que a vida era maior com ela, de que seu corao se fortalecia, de que o universo todo se enriquecia... apenas com seu amor.
E amava-a. Profundamente. Pouco importava que todos estivessem olhando. Nada importava, a no ser declarar como se sentia, quanto a queria. O amor impregnava-se neles como ouro lquido trazendo calor e poder. Sem falar no desejo sexual. Ardente, travesso e impulsivo. Desej-la tambm era bom. Justin mal podia esperar para tir-la dali, arrancar-lhe o vestido, v-la sem uma pea de roupa sequer, exceto o anel... mas era engraado. Apenas beij-la naquele momento tambm parecia bastar.
Finalmente, ela interrompeu o contato. Ambos ofegantes, entreolharam-se.
 Ora, estou achando que voc gostou do anel  murmurou ele.
	No me provoque, doutor. Eu no suportaria. Ele ficou srio.
	Eu te amo, Win. Sem brincadeira. Sempre amei. No  por causa do beb, nem por mais nada em nossas vidas.  simplesmente amor.
 Tambm te amo. Escolha uma data. Qualquer data que voc quiser, Justin.
No momento mais importante de sua vida, Justin de repente congelou.
Duas noites depois, Justin dirigia para o Clube dos Pecuaristas pelas ruas desertas... desertas por um bom motivo. Todos que podiam estavam enfurnados em casa. Caa uma chuva fina e gelada, o asfalto apresentava uma camada de gelo e o vento frio rodopiava varrendo a cidade.
Valente, Justin estacionou, saiu do carro esportivo sem ligar para o frio e caminhou at a porta da frente do clube.
Pensava em Winona. Ela agora usava o anel de safira. Naquela noite, foram para casa e fizeram amor at tarde. S que ele acordara s quatro da madrugada com um pesadelo e nada foi o mesmo desde ento. Havia algo errado. Terrivelmente errado. Com ele.
O mais estranho era que tudo parecia certo pela primeira vez em sua vida. Adorava Winona. E ela aceitara seu pedido de casamento. Pensava nela noventa por cento do tempo livre e sentia como se nada na vida lhe fosse inconquistvel. Entretanto, na hora de marcar a data do enlace, congelara.
Homens no mundo inteiro sentiam-se petrificar na hora do compromisso... mas no ele. Sempre quisera se comprometer com Win; portanto, essa reao quanto a marcar uma data era inesperada. E, enquanto no descobrisse qual era o problema, no admitiria nada a Win. Talvez devesse conversar com algum psiclogo?
	Justin! Que bom ver voc!  Matthew devia estar a sua espera, pois aparecera para lhe abrir a porta no momento certo. Deixou de sorrir ao ver sua expresso.  Raios, homem. O que aconteceu?
	Nada, s estou um pouco atrasado.  Com um olhar, Justin percebeu que todos j haviam chegado, exceto Aaron. Ben segurava uma caneca de caf e os demais optaram por bebidas mais fortes. O cheiro familiar de usque, couro e cigarro pairava no ar. Entrar no clube sempre evocava um sentimento confortvel de confraria masculina.
Dakota avanou um passo, sorrindo.
 Ora, Justin, voc est horrvel.  Como Matthew, assim que o observou melhor, ficou srio.  Eu no quis aborrec-lo... voc est bem? No est doente, est?
 No, estou timo. Desculpem o atraso. Acho que ando trabalhando demais.  Ele dissera o mesmo a Winona, mas achava que ela no se convencera. Os amigos tambm no pareciam aceitar a desculpa.
O fato era que tinham assuntos importantes a tratar naquela noite e no havia tempo para papo furado. Primeiramente, definiriam um novo esconderijo para a esmeralda e a opala preta multicolorida. Escolheram o vo sob o lambri de madeira, atrs da placa do clube. Justin trouxe uma escada e os demais providenciaram uma caixa de ferramentas.
 Cuidado, agora. Deslocar a madeira  fcil, mas do outro lado  tijolo macio. Se no tomarmos cuidado, vamos acabar com um buraco enorme do outro lado  observou Dakota.
Se estivesse de bom humor naquela noite, Justin induziria os amigos a comentrios espirituosos. Todos eram destemidos, homens que atuavam voluntariamente, sem esperar agradecimento ou recompensa, para salvar uma criana ou um inocente. Cada um deles honraria seu ttulo de membro do Clube dos Pecuaristas do Texas.
No obstante, na hora de executar uma tarefa como aquela, o mesmo grupo confrade soltava palavres em fileiras, discutindo sobre a forma correta de se fazer isso ou aquilo.
Justin teria contribudo com sua cultura intil. Naquela noite, entretanto, quando a pequena cavidade ficou pronta... e os comentrios cesssaram... apenas subiu na escada para guardar as   pedras.
Todos olharam as gemas uma ltima vez. Justin envolveu-as num veludo, guardou-as rum tubo de filme de mquina fotogrfica e o alojou na cavidade. Em seguida, recolocou a placa com o lema do clube: Liderana, Justia e Paz.
 No podia ficar melhor  aprovou Matthew.
 Quero dizer, ainda precisamos encontrar um local mais seguro, mas, at sabermos o que aconteceu com o diamante, est timo.
Limparam todos os vestgios da obra.
 Agora, vamos repassar as ltimas novidades  sugeriu Matthew.  No h nenhuma pista do assassino de Riley Monroe, h?
No, no havia... o diamante vermelho ainda estava desaparecido. Eles sequer tinham uma evidncia que relacionasse o roubo ao acidente de avio... mas o ladro, com certeza, era algum, que estava no vo. Klimt, o nico que poderia dar algumas respostas, ainda no sara do coma. O assassino de Riley Monroe obviamente era o ladro das jias, mas a polcia ainda no tinha nenhuma pista dele.
 Bem, algo deve surgir  comentou Matthew.
 A espera  que me deixa louco.
	E duvido de que haja outra pedra como o diamante vermelho. Se ela aparecer em algum lugar, atravs do mercado negro, ficaremos sabendo  comentou Dakota.
	Justin?  invocou Ben, percebendo-o muito quieto.
	Concordo com todos. Vai levar mais algum tempo. Nunca aceitamos uma derrota e no comearemos agora.
Os outros concordaram com entusiasmo, mas Ben no se deixou enganar.
	Voc estava pensando em algo, Justin.
	, estava.
Justin no sabia explicar, mas a sensao lhe ocorreu ao dar uma ltima olhada nas pedras. Sentira o corao descompassado e o motivo era o diamante desaparecido. Aquela gema representava a liderana e a honra.
Com o corao acelerado, recordara eventos da Bsnia. Um motivo nobre o levara a se apresentar como mdico voluntrio para trabalhar no pequeno pas destrudo pela guerra: queria salvar vidas. Na ocasio, considerava-se a pessoa ideal para a tarefa... era um dos melhores traumatologistas em exerccio.
S que mergulhara num pesadelo. As condies de trabalho eram precrias; s vezes, no havia medicamentos, faltava aquecimento, eletricidade... s vezes, at gua corrente. Tinha a habilidade, a compaixo, mas no podia salvar aquelas pessoas. De volta aos Estados Unidos, mudara de especialidade, para a cirurgia plstica, incapaz de exercer qualquer especialidade em que os pacientes morriam.
Fez sentido na poca.
Fez sentido por muito tempo.
Fez sentido at pedir Winona em casamento.
Com a vida sentimental resolvida, Justin percebeu que algo ainda o incomodava. Agora, temia no ser o homem forte e honrado que Winona acreditava que fosse. Ben tocou no ombro do amigo.
 Est com algum problema. Quer se sentar? Quer conversar?
Matthew tambm ficou preocupado.
	Justin, voc parecia arrasado quando chegou. O que foi? Conte-nos. O que podemos fazer para ajud-lo?
	Nada  respondeu ele. No sabia se estava mais aliviado ou mais preocupado por identificar o que o incomodava. De qualquer forma, no imaginava o que fazer.
O telefone tocou. O clube estava fechado e devia ser engano ou algo sem importncia, mas Justin quis atender para quebrar a tenso.
 Justin? Oh, ainda bem que  voc. Eu no sabia onde voc estava...  Ele ouvia a voz transtornada de Winona.  Eu preciso de voc. Agora. Angel no est respirando direito. Tenho medo de lev-la ao hospital, tenho medo de fazer qualquer coisa que possa piorar seu estado, eu...
Justin nem esperou o restante. Winona precisava dele.
 Estarei a em cinco minutos. Prometo.

CAPTULO XI

Winona j sentira medo antes, mas nunca tanto assim. Naquela tarde, descobrira quem era a me de Angel. Na hora, imaginara que nada poderia ser mais importante ou traumtico do que aquilo... mas estava enganada.
Naquele instante, carregava o beb porque estava aterrorizada demais para fazer qualquer outra coisa. Chegara do trabalho e tudo corria bem em casa... at Angel acordar, emitindo sons estranhos, como se estivesse engasgada.
Ficara com medo de colocar o beb deitado. Tinha medo de carreg-la tambm, de fazer algo que a prejudicasse. Claro, como policial, tivera um bom curso de primeiros socorros, mas de que adiantava? No havia nada no manual sobre a ansiedade de ver seu beb sofrendo e como controlar o medo de fazer algo que piorasse tudo.
Ouviu a porta da frente abrindo-se.
 Justin? Aqui! Rpido!
Winona ainda no sabia o que se passava na cabea dele, mas havia dois dias tinha uma teoria. Por vrios dias, ele insistira em que se casassem para que pudessem cuidar de Angel. Ou seja, ele queria um casamento de verdade. Deixara isso claro... provara que a amava, de todas as formas que um homem podia amar uma mulher.
Na hora de marcar a data, porm, ele desconversara vrias vezes.
Ela imaginara que tivessem algo especial. Durante tantos anos, nunca considerara a possibilidade de se casarem por convenincia. Era uma idia absurda. Ento, percebera que Justin a amava. E como se esforava para esconder isso. Analisara-o em vrios papis, como pai, como amante, at se convencer de que seria capaz de externar todo o seu amor quando finalmente se abrisse.
S que o homem a fizera se apaixonar tambm. Praticamente a obrigara a se apaixonar. E congelava na hora de marcar a data do casamento?
Bolas, isso incomodava. Na verdade, magoava tanto que no dormia havia duas noites. Naquele momento, entretanto, no tinha tempo para mgoa ou raiva. S tinha uma coisa na cabea... o beb.
Sentiu a presena de Justin no quarto antes de ele dizer qualquer coisa. Ouviu quando ele jogou o palet de lado, mas nem o olhou porque estava assustada demais para desviar o olhar de Angel por um segundo sequer. Em vez disso, comeou a passar o histrico:
 Ela est meio engasgada h quase vinte minutos. Talvez devesse ter levado ao hospital, mas no sabia o que estava acontecendo... tambm no queria sair com ela nesse frio, nem fazer nada que piorasse a situao. Mas sei... qualquer um sabe... que h algo errado. Ela no est respirando direito...
	Pare de falar. Apenas conte-me o que aconteceu.
	Eu a coloquei para dormir h uns quarenta e cinco minutos. Ela esteve bem o dia todo. Muito bem. E dormiu logo, mas deve ter engolido alguma coisa, porque comeou a tossir. Corri da cozinha para c e parecia que ela tinha engasgado. Eu a levantei e bati nas costas, achando que poderia ajud-la a vomitar algo...
 E saiu alguma coisa?  Justin procurava manter a calma.
	No. Mas devia haver algo, porque ela no parava de tossir e continua respirando com dificuldade. Veja, est azulada...
	Chamou o pediatra?
	No, claro que no. Eu chamei voc. Eu quero voc.
	Win, vamos, voc sabe que no tenho especializao em bebs...
	Voc conhece traumatologia como ningum. Eu s quero voc.
	Raios, Winona. Voc no sabe o que est me pedindo.
Aquilo era to estranho que ela teve que encar-lo. No se tratava deles e, sim, do beb... Mas, de algum modo, toda a mgoa de Winona desapareceu naquele instante. No sabia porque ele evitava marcar a data do casamento, mas amor no era o problema. Via o jeito como ele a olhava, os cabelos pretos ainda midos com a neve derretida, o rosto avermelhado por causa do vento. Seu olhar exprimia amor.
Concentrando-se em Angel, Justin a tirou dos braos de Winona e pousou no bero. Com cuidado, retirou as roupinhas, sempre murmurando para acalm-la.
	O que quer dizer com no sei o que estou lhe pedindo?  indagou ela.
	No posso arriscar que nada acontea a Angel. No a ela. No posso, Winona. Estou falando srio. No sou mais traumatologista.
Era perturbador. Winona ouvia as palavras, mas elas no faziam sentido. Justin j tomava conta de Angel. Assim que ele surgira  porta, sentira um pouco do pnico se esvair. Bem, quase. Ainda tinha a cabea rodando, os joelhos trmulos, a palma das mos midas. Sem saber como era um ataque de pnico, desenvolvia os sintomas com toda a intensidade. Claro, seu trabalho era lidar com pessoas em crise e o realizava muito bem.
Mas tratava-se do seu beb.
Por isso, no era a mesma coisa.
Mesmo assim, quando Justin chegou... independente do que disse... tudo ficou melhor. No a preocupao com Angel, mas... se algum podia salv-la, era Justin. Se tivesse que escolher algum em quem confiar dentre todas as pessoas no universo, escolheria Justin.
Bem baixinho, ele disse:
 Vamos l, ento. Traga um saco plstico grande e um canudinho. Rpido, sim?
Ele no parecia aflito, nada indicava que devia preocupar-se, mas Winona entendeu que devia se apressar. Saiu e voltou num minuto com os itens pedidos.
	Voc sabe o que , no?  adivinhou ela.
	Sei  respondeu ele.   a baleia de pelcia.
	O qu?
	Assim que a deitei no bero, eu vi... A costura est aberta aqui e um pouco da espuma do enchimento saiu. Acho que o beb engoliu alguns pedaos. Quando voc bateu nas costas dela... acho que um pedao saiu.  Ele apontou para o cho.
	Oh! Acha que ela engoliu isso? Por isso est com dificuldade em respirar? Isso  txico? Poderia...
	Win?
	Sim?
	Quero que oua com ateno. Ela engoliu em seco.
	Estou ouvindo.
	No d para resolver sem estrago. Ainda h espuma na garganta.  isso que est dificultando a respirao e terei que remover o obstculo. Winona?
	Sim.
	Eu te amo. E prometo... prometo, Win... que ela vai ficar bem. Mas no ser divertido ver, assim quero que v para a sala, sente-se e aguarde.
Winona recusou-se a sair. Justin explicou que faria uma traqueotomia, um corte na garganta, se no conseguisse sugar o pedao de espuma com o canudinho. De uma forma ou de outra, liberaria as vias respiratrias.
Era uma sensao estranha, naquelas circunstncias, temer mais por Justin do que pelo beb. Mas Winona continuou observando com os olhos e com o corao. E, havendo lgica ou no, entendeu que era um desafio para Justin... algo que significava mais que o beb, algo que ele sequer conseguiria explicar.
No foi nada agradvel acompanhar o procedimento, mas, minutos depois, o beb tossiu com fora e um pedacinho de espuma saiu. Justin levou o beb ao ombro e bateu em suas costas, acalmando. Ao mesmo tempo, encarou Winona com os olhos midos.
 Diga  sua filha para no me assustar assim nunca mais  disse ele.
Winona queria Angel nos braos, mas permitiu que Justin continuasse segurando-a. Trocou o lenol do bero para garantir que nenhum pedao de espuma restasse perto do beb. J passava da meia-noite quando Angel, com roupinha trocada, voltou a dormir. Ambos relutavam em sair do quarto e ficaram parados, observando o beb.
Quinze minutos depois, continuavam parados, embora Justin j houvesse afirmado trs vezes que no havia mais perigo.
	E ela est dormindo bem  concordou Winona.  Vamos,  tolice continuar de guarda. Est na hora de ns dois dormirmos tambm.
	V voc. Eu vou ficar observando mais um pouquinho.
	No, v voc  rebateu ela.
	No, v voc  contrariou ele.
As duas da manh, Winona despertou na cadeira de balano junto ao bero... e viu Justin ao lado, numa segunda cadeira de balano. Mantinha o pescoo to tenso quanto ela e a mesma expresso cansada.
Sorriu. Ele a amava. E amava Angel. Agora, entendia a hesitao dele quanto ao casamento, nos dias anteriores.
Ele abriu os olhos, como se sentisse seu olhar. Preocupado, levantou-se, foi at o beb e avaliou a respirao delicada. Satisfeito, relaxou e voltou  cadeira, passando a mo pelo rosto.
	Ela est bem, Winona. Ficar aqui  bobagem, ns dois precisamos dormir um pouco.
	Eu sei  concordou ela, mas no se moveu. Ficou observando formas e contornos na escurido at lembrar-se de um assunto que queria comentar com ele.  Com todo esse problema, eu no pude lhe contar, Justin. Voc no precisa mais se casar comigo.
	Como?
	Eu descobri quem  a me de Angel.
Ele engoliu em seco, levantou-se e tomou-lhe a mo. Na sala escura e silenciosa, Justin a segurou pelos ombros e fez com que se sentasse no sof.
 Est bem. Agora me conte tudo.
	Ela estava na festa do Clube dos Pecuaristas. Era uma das convidadas. A esposa de Herb Newton, Alicia. Herb est viajando pelo Extremo Oriente. Ela estava grvida no ano passado, mas, quando chegou a poca de o beb nascer, disse aos vizinhos e parentes que a criana era natimorta. Procurou uma parteira em vez de ir ao hospital. A parteira confirmou sua verso. Herb no participou da gravidez e ela disse o mesmo a ele, que a criana nasceu morta.
	Como descobriu que ela tinha mentido?
	A parteira ficou com o beb nos primeiros meses, mas se atrapalhou ao contar a histria, querendo ajudar Alicia. Parece que Herb  um marido violento. Ele batia nela, mesmo estando grvida, e ela ficou com medo de que ele machucasse o beb. Na verdade, tinha certeza de que ele machucaria o beb. Assim, pediu  parteira que deixasse a criana na minha porta.
	Oh.  Justin parecia comovido. Com a mo em seus cabelos, comunicava muito mais e Winona sentiu o corao disparar. De amor e de esperana. Mas ainda precisava contar mais.
	Alicia era uma das pistas que eu estava seguindo. Quando eu conversei com ela ontem  tarde, tudo se esclareceu. No vai ser simples, Justin, em relao ao futuro de Angel.
	Por qu?
	Porque ela tem medo de que Herb a mate se descobrir que o beb est vivo. Ela no quer a criana. De forma alguma. Vai levar muito tempo para conseguir sair desse relacionamento, conseguir o divrcio e recomear a vida. Mas, se Herb souber da criana, ela teme que ele exija a custdia... e porque ele  o pai de fato, se conseguir, pode for-la a viver com ele novamente... ou isso, ou ele mata as duas...
	Que horror!  disse Justin.
	Sim. E essa  a questo... no d para resolver de maneira simples, pelo menos no por enquanto. Se Alicia conseguir o que deseja, ela vai entregar a criana em adoo, especificamente a mim. Ou a ns.  Winona o encarou.  Mas o mais importante  que no h motivo para voc se casar comigo, apenas para me habilitar  guarda provisria ou  adoo de Angel. Ns conhecemos a situao da criana. Vai levar algum tempo para resolver a questo legalmente, mas um casamento no vai ajudar, nem prejudicar minhas chances de ficar com Angel. Os problemas legais de fato so entre Alicia e o marido.
	Win, eu no ia me casar com voc por causa de Angel.
	Foi o que pensei. Mas como hesitou em estabelecer uma data... como se no estivesse falando srio, voc me magoou, doutor.
Ele ficou tenso de ansiedade.
	Eu nunca quis mago-la. Nunca. E sempre quis me casar com voc, Win, h anos. Desde a primeira vez em que a vi, quando tinha doze anos e chutava qualquer menino que lhe dissesse ol. Voc era mesmo teimosa. To m. To corajosa...
	Pare de me elogiar, seu bandido, e diga por que me magoou.
	No queria mago-la. No tive a inteno.
	Justin... isso no basta.
Houve silncio e ele desviou o olhar. Pouco depois, voltou a encar-la.
 E que de repente percebi... que talvez eu no seja o homem que imaginava ser.
Winona tomou sua mo, para que ele visse o anel de safira na penumbra. Ento, entrelaou seus dedos para lhe passar confiana.
 Perdi tantos pacientes na Bsnia... Na traumatologia, voc perde pacientes, s vezes.  assim. Sempre. Uma briga, uma guerra contra a morte. As salas de emergncia so uma desordem, lugares inadequados, onde uma deciso que tem que ser tomada num segundo pode levar  vida ou  morte. Mas... Win, eu juro que pensava que era bom nisso.
Ela lhe apertou a mo e ele retomou o desabafo:
 Mas no havia condies l na Bsnia. s vezes, no havia eletricidade. Faltava energia, gua, equipamentos, drogas. E chegavam pacientes que podiam ser salvos, crianas sofrendo, mas eu no podia fazer nada. Nada.
Winona sentia todo o sofrimento. Sempre imaginava a causa da solido que via no olhar dele. A emoo que ele no demonstrava. A forma como enganava a todos, comportando-se como um playboy. Sabia que ele tinha segredos, porque todo mundo tinha. Mas no sabia que sentiria o corao despedaado ao conhecer sua dor.
	Eu pensava que era mais forte. Mas voltei para casa e fiquei abalado com a idia de ver outro paciente morrer. Assim, mudei de especializao. Ainda vejo dor, mas geralmente h algo que eu possa fazer. E ningum morria por minha causa. Eu achava que a mudana tinha sido uma boa escolha, mas, aqui dentro... ainda me sentia arrasado. Eu no era o homem que queria ser. O homem que pensei que era.
	Oh, doutor.  Winona largou a mo e o abraou.  Voc  to idiota e eu o amo tanto.  Tomou-lhe o rosto e o beijou. Um beijo possessivo e agressivo. Entretanto, havia tanto amor naquele beijo que Winona sentiu lgrimas nos olhos.  Voc vale dez vezes um homem comum, seu bobo. Achava mesmo que podia fazer tudo?
	No, mas... s no percebia o quanto isso tudo pesava em minha conscincia. At comearmos a falar em casamento e quando fizemos amor. Nos sonhos que tinha com voc... Ento, percebi que no tinha enfrentado... que fui um covarde.
	Isso  o que voc acha. Agora, grave bem: eu no amaria um covarde. No como eu o amo. De corpo e alma.
Ela viu no olhar dele, na maneira como ele a beijou, que tudo ficaria bem. Mas Justin parecia ainda querer revelar mais.
	Eu s no tinha certeza... se voc me conhecia. Voc no sabia que eu tinha essa falha. E temia estar enganando-a. E a mim. No podia garantir que era o homem de que voc precisava.
	Voc salvou o nosso beb esta noite, doutor. Onde est a falha? Voc estava com medo, mas mesmo assim tomou a iniciativa. Voc  o melhor mdico que eu conheo. Mais que isso, voc  o melhor homem.  Ela o beijou novamente, desta vez com ternura.  Eu te amo, Justin.
	Ali, Win, e eu te amo tanto. Tanto. Por isso andei preocupado nesses ltimos dias. Queria o direito de am-la para sempre.
	Passamos por uma prova de fogo, no ? Mas, de agora em diante... os seus temores so os meus. As suas preocupaes, as minhas.
	E o seu amor... o meu amor  completou ele, tomando-a nos braos, oferecendo um beijo que continha todo o amor, mais as promessas que os uniam.

EPLOGO

Cercada de malas de roupas, Winona ouviu o telefone tocar. No entendia como uma breve lua-de-mel produzia tanta roupa suja... principalmente roupas de gente mida. Deixou a rea de servio e foi atender ao telefone na cozinha, aliviada em abandonar as tarefas. Ao mesmo tempo, ouvia Angel rindo e balbuciando. Justin dava-lhe banho e divertia-se com sua alegria.
Winona ficou surpresa ao saber que era Pamela Miles.
	Que bom que ligou!  exclamou, amvel.
	Voc deve estar ocupada, j que est voltando da lua-de-mel, e detesto incomod-la. S queria saber como esto as coisas. Encontrou a me de Angel?
	Est tudo timo. E ns acabamos de chegar... Angel adorou a lua-de-mel. Na verdade, ia ligar para voc hoje  noite, assim, estou contente por voc ter ligado.
 Ia me ligar?  Pamela parecia surpresa.
Winona sorriu.
	Sim, porque lhe devo um agradecimento especial. Voc me deu a pista para descobrir a me de Angel.
	Oh.  Pamela ficou tensa, imaginando se prejudicara Winona.  Bem, sei que deve ser um alvio saber quem  a me. Mas isso no significa que ter que abrir mo do beb?
	Pelo contrrio.  Winona esticou o fio do telefone para chegar  geladeira. Ainda conversando, tirou uma mamadeira para esquentar, sabendo que Angel logo pediria o jantar.  Ns ainda nem tivemos tempo de acertar todos os procedimentos e entrar com os papis de adoo, e vai levar algum tempo ainda. Mas, no momento, est tudo uma maravilha. Lembra-se do nosso encontro na lanchonete? Voc mencionou uma mulher que esteve na festa...
	Claro, aquela que tem um marido violento.
	Essa mesma  confirmou Winona.  Chama-se Alicia. Fui atrs dela. Queria apenas descobrir a verdade sobre o beb, mas j estive com mulheres espancadas antes. Consegui que ela falasse aps confront-la com a verso da parteira e a convenci a procurar uma psicloga. S gostaria de ter chegado mais cedo. Ela no conseguiu sair de casa antes que o marido desse outra sova nela, desta vez com um basto. Ela registrou queixa e, porque ele usou um basto, pudemos enquadr-lo em tentativa de homicdio. Alicia est livre e ele vai passar um mau bocado.
Pamela suspirou.
 Estou contente por ela ter se livrado daquele homem. Ele tinha um bom emprego e eles moravam bem. Parecia tudo maravilhoso por fora. Mas eu ouvia comentrios e temia que algo errado estivesse acontecendo naquela casa.
 Sim. Ela  muito gentil. J era hora de ter sorte na vida. De qualquer forma, tudo aconteceu enquanto eu e Justin estvamos em lua-de-mel. Ela entrou em contato para pedir formalmente que adotssemos Angel. Alicia vai ter muito trabalho para reorganizar a vida, mas tem certeza de que no pode ficar com o beb. Ela inclusive pretende se mudar de cidade. E ns queremos tanto adotar essa menina...
 Oh. E to bom ver um final feliz de vez em quando. Aquele Herb... To rico e to desprezvel. Isso s o ajudou a esconder o que ele fazia. Hum, Winona?
Estranhando o tom da amiga, Winona ouviu risos no corredor e esticou o pescoo para ver um vulto passando rapidamente. Era um bonito com um beb no colo, ambos pelados e molhados, rumo  sute.
	Winona?  repetiu Pamela.
	Estou aqui... desculpe-me... s me distra um pouco.
	Eu entendo. Est chegando de viagem. Ora, vocs dois ainda esto em lua-de-mel. S quero lhe fazer mais uma pergunta.
	Claro. Diga.
	Por acaso, voc sabe se... se Aaron vai voltar logo para Royal?  indagou Pamela, hesitante.
	Aaron Black?
	Sim. No  da minha conta. De forma alguma. Mas tinha esperana de que soubesse se...
	Estou quase certa de que ouvi Justin comentando que Aaron devia chegar na cidade em poucos dias. E que ia ficar por algum tempo.  Winona no mencionou que os membros do clube iam se reunir, mantendo o tom casual, como se a pergunta de Pamela fosse comum.
Assim que desligou, pegou a mamadeira aquecida e tomou o corredor, sorridente. Lembrou-se da festa no clube. Algo naquele evento atuara como catalisador de vrios acontecimentos. Alguns, srios; outros, mgicos. Quem imaginaria que uma professora tmida e gentil acabaria danando com o sofisticado Aaron Black?
Winona estava curiosa para saber por que Pamela andava perguntando sobre Aaron nas ltimas semanas... mas se esqueceu do assunto ao entrar no quarto. Outros acontecimentos tiveram lugar naquela festa. Outros casais improvveis tambm danaram naquela noite. Tais como uma policial e um mdico playboy que dificilmente se apaixonariam.
S que ele se apaixonou.
Assim como ela tambm se apaixonou.
Total e irrevogavelmente.
Viu os dois amores de sua vida, nus na cama enorme, brincando e gritando to alto que ela teve que bater o p para conseguir ateno.
 O que est acontecendo aqui?  inquiriu.  Eu os deixo um segundo sozinhos e o que acontece? O banheiro parece que sofreu enchente. Est todo mundo nu. E molhado. E os lenis, midos!
Justin ergueu a cabea e lanou seu olhar magntico, como se estivessem separados havia horas.
	No me culpe pela cama molhada.  Justin apontou para a loira de sete quilos a seu lado chupando o dedo do p.  E tudo culpa dela. Ela no quis se vestir, s queria ccegas na barriguinha e me forou a obedec-la. Eu sou o inocente nessa histria.
	Est culpando um beb de trs meses?
	Ora, diga alguma coisa  exigiu Justin do beb.  Diga a verdade  sua me. Rpido, antes que eu entre em apuros.
	Est sonhando se acha que ela pode salv-lo.  Winona largou a mamadeira no criado-mudo e foi para a cama juntar-se aos dois. Justin tinha razo. Ele estava encrencado... para o resto da vida. Montando nela  altura da cintura, inclinou-se e beijou-a com determinao.
Angel balbuciou quando Winona sem querer tocou em seu p. Sabiam que o beb logo pediria a mamadeira e depois adormeceria. Os trs s precisavam brincar mais um pouco. Dali a meia hora, entretanto o dr. Webb se veria mais encrencado do que nunca. E pelo olhar, estava ansioso por isso.

JENNIFER GREENE mora perto do lago Michigan com o marido e dois filhos. Antes de escrever em tempo integral, ela trabalhou como professora e gerente de pessoal. A Universidade do Estado de Michigan a homenageou com o prmio "Mulher de Destaque" por seu trabalho com mulheres no campus. Jennifer escreveu mais de cinquenta romances, pelos quais ganhou vrios prmios.
